02/03/2015

NOVAS TÉCNICAS DE FORMATAÇÃO DA OPINIÃO

Resumo

O grupo no poder tem conseguido escapar a sucessivos casos que normalmente originariam a sua demissão imediata. Procuro analisar as causas da ineficácia das 'oposições'.

As razões residem na própria forma como o sistema está organizado hoje, o modo muito camuflado como as  oligarquias financeiras internacionais organizam o saque, permitindo-lhes enganar as populações, que atribuem a causas internas o que não é mais que fruto dum sistema internacional.

O público cai no engodo da propaganda - ele cresceu sob o ilusionismo consumista e mediático, o brilho falso das novas tecnologias e as permanentes promessas de sucesso fácil. Ele acredita nos media e os partidos ditos da oposição também ajudam à "festa", ao fazerem-se eco das notícias e comentários dos media, que tratam como se fosse informação objetiva.

A pouco e pouco, atordoadamente, as populações vão percebendo que as ilusões não têm nada a ver com a realidade.

A própria estrutura social é cada vez mais complexa. E as pessoas isoladas, stressadas e dispersas por múltiplas tarefas, confrontam-se com organizações gigantescas e altamente centralizadas, que usam a seu favor a manipulação dos media, beneficiando da influência cada vez maior destes.

Acrescem fatores específicos portugueses: a pequena  escala do país e consequente baixa velocidade de circulação da informação,  além da dependência face ao exterior.

E por fim a inconsequente oposição dos partidos - seja por impreparação, seja por eles mesmas estarem iludidos com o sistema e 
instalados nele.

Urge repensar os métodos de luta.

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António Pinho Vargas (APV), para além do seu reconhecido talento musical, tem-se manifestado enquanto cidadão preocupado com a situação do País em vários momentos.

Recentemente, por exemplo, publicou no Facebook um pequeno texto em que verbera a manipulação por parte dos apoiantes do grupo no poder relativamente à omissão das obrigações contributivas do cidadão Passos Coelho.

Extraio algumas frases desse pequeno texto de APV que aproveitarei como mote para uma análise mais abrangente da problemática da formação da opinião pública.


Imaginemos (...) que o recente caso dos descontos para a Segurança Social, que Passos não pagou na devida altura (...) se teria passado com um dirigente do PS (...) -  o que estes dirigentes do PSD ou do CDS teriam dito sobre tais matérias...

(...) cria-se uma "moral privada" (...) que se desfigura conforme as várias conveniências para uso corrente. Pensar que a magistratura pensou levar a tribunal Soares por ter dito "ele que se cuide" - acrescento, frase tão perigosa como as anteriores declarações de inúmeros sindicalistas "se não vai a bem vai a mal", ou seja, expressões retóricas e inúteis de um desespero da vontade, mostra o grotesco desta coisa toda. A magistratura faz parte dele (...)
- António Pinho Vargas

Passos: acusado de ocultar fuga à Segurança Social...

... os seus propagandistas desdobram-se em justificações palavrosas
da que é, apesar da gravidade moral, das menos graves praticadas por esta gente

Ao fazer esta declaração, APV acaba por abordar um dos temas que reputo mais importantes na vida social atual, o da forma como se propaga a informação e por consequência, como se faz a avaliação das figuras públicas e nomeadamente dos políticos.

Hoje, os media e seus protagonistas - jornalistas, comentadores, entertainers - são parte integrante do sistema de poder, e fator fundamental do exercício e da luta pelo poder no sistema. 

Não apenas mensageiros duma mensagem qualquer, como ainda pensa aparentemente a 'oposição' que, pela voz dum líder partidário, repetia a velha frase 'não confundimos o mensageiro com o autor da mensagem'. 

A questão é que a mensagem e o mensageiro hoje são parte integrante do pacote do ilusionismo político com que o poder é exercido.

Vemo-lo na propaganda televisiva paga, da UE e suas políticas (que vendem ainda a ideia duma  UE muito humana e solidária). Ou nos acontecimentos no médio-oriente e na Ucrânia, acompanhados de maciças propaganda e desinformação, sem as quais sequer se poderiam realizar aquelas barbaridades e o público já teria percebido que está em preparação por parte dos EUA uma 3ª guerra mundial ou algo, no mínimo, muito perigoso e grave.
OS MEDIA SÃO O QUARTO PODER, 
MAS NÃO-AUTÓNOMO DO PODER PRINCIPAL

Cada vez mais o poder mediático (talvez alguns tenham esquecido, mas nos anos 70 falava-se já do 4º poder) é entregue a profissionais bem treinados, não só em comunicação e imagem como em métodos de manipulação e contra-informação.

Se nos anos 70 já se falava nisso, hoje faz muito mais sentido. com novas nuances, porém.

A verdade é que poucas pessoas – incluindo os especialistas – têm noção da importância real dos media na formação das opiniões.

Alguns alegam que o nível profundo de opinião, ou seja, as convicções no "estado sólido", são muito pouco afectadas pelos media. As pessoas formariam esse nível de opinião profundo pela participação nos seus grupos primários -  família ou círculo natural de amigos - ou em grupos profissionais, culturais, de lazer, etc. de que fazem parte. E acrescentam: menos de 10% de pessoas lêem jornais em Portugal e apesar dos avanços apenas uma minoria tem acesso à internet.

Não me parece verdadeira a conclusão
, apesar dos últimos factos apontados serem reais.

PORQUÊ E COMO OS MEDIA FORMATAM AS OPINIÕES? 

Hoje há outros factores a ter em conta
:

- O tempo cada vez maior que crianças e adultos gastam a ver televisão, ao ponto da maioria ligar automaticamente a TV ao chegar a casa, dormir com a televisão aberta, comer e fazer outras tarefas assistindo televisão
- O tempo reservado ao convívio familiar, aos jogos e brincadeiras infantis espontâneos e à relação autónoma familiar  é cada vez menor
- O número de famílias com disfuncionalidades de comunicação aumentou muito (a presença da TV não é a causa principal, mas é um fator que agrava)
- A falta de tempo dos pais para os filhos, o crescente individualismo, o isolamento dos séniores na sua casa, tudo contribui para a desagregação familiar, exclusivamente determinada pelas exigências profissionais e pelo estilo de vida social (ritmos, transportes, duplo emprego, trabalho extra-horário, padronização de valores e comportamentos) impostos pelo sistema na sua forma atual, não fruto de qualquer livre escolha individual, como nos é vendido.

Cada vez menos aquilo que se faz nos media – incluindo internet e redes sociais virtuais – é deixado ao acaso. A manipulação intencional por organizações profissionais – empresariais ou políticas – é cada vez maior, o que se vê até numa simples busca Google, personalizada conforme o perfil de cada utilizador automaticamente armazenado na base de dados do "motor".

OS MEDIA NÃO SÃO APENAS EMISSÁRIOS, 
ELES FAZEM PARTE DO PODER

Assim, uma primeira conclusão: encarar os media como um factor secundário é errado. Eles desempenham um  papel enorme na formação duma opinião pública e pessoal, em que o tempo passado frente às TVs, aos computadores, smartphones, ipods, consolas e outros media é enorme, e a quantidade e refinamento da informação por essa via é cada vez maior.

Hoje mais que nunca fazem-se e desfazem-se imagens de líderes, eventos e correntes de opinião, simplesmente criando-as, montando-as e pondo-as a circular nos media.

Mas a questão mediática obviamente não é tudo.

UM PROBLEMA SISTÉMICO E DE MENTALIDADES

Ilustrar o fenómeno da manipulação atribuindo-o apenas ao comportamento de certos personagens ou grupos, pode conduzir a uma visão redutora.

Tenho analisado bastante o problema da informação e creio que ele é sistémico e, por outro lado, entra no terreno da mentalidade

Tiro estas conclusões baseado em muita observação não só dos conteúdos informativos dos media principais, mas também de blogues, fóruns e grupos de debate net e espaços para comentários dos media on-line e ao vivo.

Em Portugal, conseguiu-se instalar um sistema e uma mentalidade que passo a caracterizar.

CARACTERISTICAS DA MANIPULAÇÃO POLÍTICA EM PORTUGAL

Sempre que há um governo ou político, mesmo que equivocamente, apelidado de esquerda e ele tem uma pequena falha - real ou inventada - caem-lhe todos em cima e, pior, responsabilizam-no direta e pessoalmente

Já quando se trata dum governo de direita, como se vê de forma mais óbvia no atual, assistimos a campanhas - orquestradas ou não - de grosseiro branqueamento das suas responsabilidades em qualquer facto negativo.

Vejamos exemplos recentes:

- As mortes e negligências hospitalares que ocorreram de forma generalizada no pico do frio foram explicadas como efeito da má gestão de diretores hospitalares e médicos, de modo a esbater a responsabilidade dos cortes e do desinvestimento no SNS por este governo - apenas a gravidade do caso e algumas vozes indignadas impediram um total branqueamento;

- Quanto ao desemprego, à vaga de falências, à corrupção, à nova vaga de emigração, ao aumento dos números dos sem-abrigo, da pobreza, dos idosos isolados, etc. - a culpa é atribuída a factores “diversos” (mas nunca ao governo) como:

a)    O 25 de Abril, que teria gerado todo um “novo” sistema de corrupção

b) O “socialismo” (?!) que terá passado a dominar o País – isto dito com desfaçatez por alguns propagandistas nas “redes”
Nota: Chocante falarem de 'socialismo' num país onde privatizaram uns atrás dos outros todos os sectores e grandes empresas a partir dos anos 80, um país com leis laborais das mais desfavoráveis aos trabalhadores dentro da OCDE e não só

c) Os supostos defeitos do povo português, apontado sem pudor como pobre, ignorante e sem espírito empreendedor, em contraste com os “maravilhosos” povos do norte da Europa
Nota: Porquê a democracia e toda a civilização moderna nasceu no sul da Europa, com o contributo de Portugal, e no final do séc. XIX a Suécia e os outros países nórdicos eram pobres , registando uma enorme emigração? E porquê as mais sangrentas e criminosas guerras foram provocadas pela Alemanha e pelo Japão, também desse norte 'tão civilizado'?

d) Os políticos em geral, apontados como corruptos e sem qualidade, o que seria culpa do peso excessivo do Estado

e) Estado e suas instituições - feitos bombos da festa porque  "delapidam o dinheiro dos contribuintes” e os “escravizam” 
Nota: Forma óbvia de branquear os cartéis multinacionais, apresentados como “geradores de riqueza e emprego”, enquanto tudo que seja Estado apenas serve, dizem, "para retirar meios à economia produtiva".  Afinal "argumentos" para justificar privatizações selvagens e cortes em tudo quanto é Segurança Social, subsídios de desemprego, Saúde, Educação e restantes funções sociais.


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18/02/2015

A PROPAGANDA ILUSIONISTA DOS MERCADOS. UMA ILUSTRAÇÃO: O CASO PT

Há alguns temas recorrentes na propaganda dos plantões ao serviço da nova ordem capitalista que cada vez mais se impõe subrepticiamente no mundo.


--> Esta publicação do grupo americano-brasileiro Globo ajuda a fabricar uma imagem idílica de "grande empresário" do player  que comprou a PT (ver link no final)







FANTASIAS VENDIDAS A PATACO

Uma das ideias que esses charlatões 'vendem' é que os países estão em crise porque não têm empresários competentes e empreendedores, e são demasiado corruptos. Ou ainda que a culpa é da população, preguiçosa e ignorante...

Para os propagandistas da "nova ordem", o sistema capitalista que designam por "o mercado" está cheio de gente séria.  Desde que se tenha iniciativa consegue-se enriquecer rapidamente. E qualquer país pode superar a crise, é só deixar 'o mercado' funcionar sem entraves sindicais, sem lutas, sem direitos.

TOMEMOS UM EXEMPLO RECENTE - A PT

Será que o maior grupo tecnológico português foi vendido - de forma caótica e por um preço 2 ou 3 vezes inferior ao seu valor real - apenas porque os seus gestores foram medíocres ou corruptos? 

E o comprador, esse sim,  é um empreendedor talentoso que subiu a pulso - como de forma grosseiramente demagógica é pintado pelos media mundiais?

Tudo mentiras!
A PT - apesar das culpas dos seus gestores, que no entanto são de nível mundial - terá sido prejudicada por interesses alheios à empresa. Nada de mais, afinal acontece no mundo todo. Estes gestores só tiveram algum 'azar'... cheira-me que o maior deles foi não servirem (ontem, hoje já não digo nada...) a Goldman Sachs ou a Carlyle.

O VERDADEIRO VALOR DA PT

A verdade é que a  PT era - e é - uma ótima empresa, como se vê nos números públicos.
Tomando 2013, ano mais típico que 2014, quando surgiu a confusão Rioforte/BES e o efeito Oi ganhou força.
As receitas operacionais da PT ascenderam a 2.911 milhões de euros, e o lucro antes de impostos, a 1.162 milhões euros.
Os seus ativos eram então superiores a 12.000 milhões de euros
Isto, sem as contas da Oi, porque com estas os números atrás multiplicam-se várias vezes.

Certo que em 2014 houve o prejuízo dos 897 milhões da Rio Forte/GES. 
O que, sendo relevante, jamais afetaria o valor duma empresa que tem um ativo e vendas ou lucros como os da PT. Este golpe foi apenas um pretexto para uma campanha desvalorizadora da imagem da PT e para a administração da Oi vender a PT.
  
Veja-se que a PT vendera poucos anos antes os seus 50% da Vivo, e só isso rendeu-lhe 7,5 mil milhões de euros. Com menos de metade desse dinheiro, comprou então 23% da Oi dentro dum projecto conjunto PT-Oi que resultaria na construção dum grande grupo de língua portuguesa. Hoje vemos que afinal havia pessoas ou forças internas e externas que não estavam interessadas: à primeira oportunidade enterraram o projecto.

Agora a PT é vendida por 7,4 mil milhões € à Altice, do judeu francês Patrick Drahi.

Como é possível? E como por esse preço, numa empresa que além de dominante em Portugal, detém 23% da Oi e detém as principais Telecoms de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Timor e outros países?

AS VERDADEIRAS RAZÕES DO NEGÓCIO PT

Tudo aponta que as razões da ruinosa venda da PT só podem ser encontradas em jogadas da alta finança mundial e em poderes político-económicos secretos que manipulam a seu belprazer - imaginamos por que meios - de modo a criar condições para comprar a preço da chuva e para vender caro mais tarde, ou simplesmente para fins estratégico-políticos.

Como parece ser o caso deste Patrick Drahi que, sabe-se agora, anda a preparar um grande grupo mediático judeu na Europa, que possa abarcar novos setores  da opinião pública mundial.

Como é que uma empresa que cresceu tanto, e deu sempre altos lucros, pôde ser vendida apenas pelo valor que tinha a sua própria participação na Vivo, poucos anos antes? Absurdo.

Outra explicação - não contraditória, mas complementar - é de natureza estratégico-política. Além do projeto duma Aljazira euro-israelita, poderá haver aqui 
uma "mão comprida" nas telecomunicações em Portugal e no Brasil (conferir link abaixo do novo cabo para  a Europa).


UM SISTEMA MINADO POR PODERES OCULTOS

Todos estes negócios não seriam possíveis sem o apoio de poderosos bancos. Já chego lá...

Mas para os propagandistas do 'mercado', o capitalismo funciona todo ele a azul e rosa: um mundo perfeito onde só contam as capacidades individuais e a competência - eis uma fábula em grande estilo.
Apenas propaganda grosseira.

A realidade grave é a dos poderes ocultos que desgovernam o mundo, fazendo e desfazendo conglomerados e países a seu belprazer, como se constata agora mesmo, vendo as notícias do dia! Poderes com uma agenda própria.

E o famoso mercado, não existe?  Existe. Só que é manipulado com toda a facilidade por tão grandes poderes. Eles podem até jogar dentro das regras. Mas quando não lhes convém alteram-as e o jogo passa para baixo do pano...

Para grupos com mais dinheiro que a maioria dos países - caso da Goldman Sachs ou da Carlyle, por exemplo - tudo é possível. Quem duvida?

LINKS IMPORTANTES PARA PREENCHER O PUZZLE

Finalizo com alguns links onde se podem conferir os dados e hipóteses enunciados.

A - Interesse em dominar a PT para interferir nas comunicações brasileiras (não sendo de excluir que a OI esteja incluída no pacote, uma vez que a PT detém 23% da OI e é o maior acionista)



B - Comprovativo de que a PT valia muito mais que os 7,4 mil milhões de euros por que foi vendida, uma notícia de 2006:


C - As historietas dos que fabricam (literalmente) a imagem dos testas de ferro, pintando-os como grandes empresários milagreiros, que sobem a pulso por mérito pessoal e a partir "dum pequeno negócio":


D - A realidade é bem diferente. Patrick Drahi deu o salto após se ter juntado ao suspeitissimo grupo Carlyle:


E - E o que é a Carlyle? Aqui vai um pequeno "cheirinho":


Ou o poder financeiro da Carlyle na Ásia. Terá sido por isso que Drahi, na altura dono duma pequena consultora europeia, conseguiu o contrato da instalação da fibra ótica em Pequim (que o lançou no mundo da alta finança)? - é apenas uma pista.
http://exame.abril.com.br/.../carlyle-levanta-us-3-9-bi...


F - E quem financia de facto? Várias notícias apontam o alto endividamento do grupo Altice. Sempre expandindo, porém, com novas e vertiginosas aquisições .

Aqui se vê quem o financia. A notícia diz que "ele escolheu o banco". 
Não será o contrário? 
Testas de ferro não escolhem, são escolhidos.
Será?

G - A omnipresente Goldman Sachs. Interessante saber quem a dirige, no caso, o próprio presidente. NOTA: Talvez mais interessante que os conteúdos, de duvidosa fiabilidade, da Wikipedia, seja no final de cada artigo, a tabela das relações e categorias.



Nota

Um pouco à margem do tema, é interessante notar que, segundo a Wikipedia:

"Goldman Sachs esteve envolvido na origem da crise financeira da Grécia, pois ajudou a esconder o déficit das contas do governo conservador de Kostas Karamanlis. Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, era vice-presidente do Goldman Sachs para Europa, com funções executivas, durante o período em que se realizou a ocultação do déficit"

Como se vê, tudo boa gente, nada manipuladora. Nem sabem o que isso é...

A competência, o empenhamento, e o espírito empreendedor é que contam”. - Boa piada...









14/02/2015

A MANIPULAÇÃO NOS MEDIA ON LINE SABOTA A DEMOCRACIA

As páginas de comentários on-line dos principais media portugueses estão cada vez mais intragáveis, quer pela baixeza dos insultos de prostíbulo que ali prolifera, quer pela desmultiplicação de perfis falsos e multi-nick anónimos, quer pela configuração das plataformas que afasta qualquer leitor por mais tolerância e literacia que possua. Um dos casos mais flagrantes é o jornal Expresso.

É um facto menosprezado pelos líderes de opinião (se é que isso ainda existe entre nós). No entanto é grave do ponto de vista democrático e deveria merecer mais atenção.

O sistema de informação mediático é dominado por comentadores e jornalistas comprometidos com o sistema em maior ou menor grau, escolhidos a dedo para os noticiários principais de modo a manipular o maior público possível.

SPAM, ASSÉDIO E MANIPULAÇÃO NA INTERNET
Mas as cliques no poder também perceberam a importância da internet. Aliás, tornou-se ‘obrigatório ‘ nas campanhas eleitorais constituir task-forces que mantêm a propaganda e a contra-informação de cada partido bem ativas nos media e nas ‘redes sociais’.


                                             Página de comentários a um artigo no Expresso on-line

Daí, a presença de plantões permanentes , em todas as páginas on-line e redes sociais, constituídas por “boys” partidários previamente preparados ou por tarefeiros das agências de desinformação contratadas - facto mais que provado.

As suas técnicas têm padrões:

 - Colocarem o primeiro comentário em cada  notícia mais lida, de modo a aumentar a visibilidade da propaganda do plantão

– Manter diálogos enormes entre os agentes do plantão ou entre perfis falsos criados por um só  agente, de modo a realçar a sua própria propaganda e a abafar a visibilidade dos opositores, empurrados assim para o fim da fila ou para segundas páginas; estes, se querem visibilidade, ficam obrigados a entrar como mera resposta ao comentário principal, no meio duma lixeira de diálogos artificiais semeados pelo plantão

- Nada de debates construtivos com o adversário; apenas propaganda do  lóbi que representam, se preciso truncando ou saltando de tema arbitrariamente, mas nunca deixando o opositor sem resposta, mesmo que apenas na forma de insulto

- Quando o opositor é forte e os desmascara, recorrem ao insulto  ou à ameaça – muitas vezes usando um ‘alias’ ou perfil falso – método sempre eficaz se o objetivo é destruir; perturba o opositor  e afasta outros participantes, que não percebem o porquê da zaragata

- Uso do método tipo tortura pidesca ou esquadrão da morte dos militares latino-americanos:  polícia bom de conversa civilizada, alternando com o polícia mau, que agride, humilha e ameaça

- O uso do perfil falso ou dum nome coletivo dificulta a identificação, já que o crime, para ser alvo de processo judicial, precisa dum autor identificado.

CRIMES NÃO PODEM FICAR IMPUNES
Há que pensar  seriamente em constituir apoio jurídico contra este tipo de assédio, porque além da degradação da democracia, resultam prejuízos morais graves nos visados, sendo de responsabilizar a própria direção do Jornal ou Grupo, mesmo que ela se faça de desentendida e declare que "os comentários são da exclusiva responsabilidade de quem os faz". 

Não são. Os criminosos só têm eficácia porque a instituição os mantém publicados e não os expulsa, apesar das constantes denúncias (há um "botão" para isso em qualquer página on-line). Existe pois uma conivência óbvia da direção que a coloca sob alçada da lei.

Para o efeito, as vítimas devem proceder a capturas de écrã de todas as ocorrências de assédio e guardá-las em local seguro. Eu venho-o fazendo regularmente e é bom os autores dos crimes, seus patrocinadores e diretores ou coordenadores das páginas ou grupos não pensarem que ficam impunes destes crimes, só possíveis pela bandalheira deliberada que promovem em tais espaços.

Finalmente, é uma ilusão pensar que os diretores ou coordenadores permitem tais práticas por mera ingenuidade ou incompetência. Alguns têm contratos com agências de desinformação cujo trabalho é esse mesmo: infiltrar agentes, criar anti-informação e barrar qualquer debate democrático sério. Não excluindo que alguns coordenadores de grupos on-line sejam agentes infiltrados por agências ou serviços secretos com o objetivo de sabotar e manipular grupos anti-sistema e transformá-los no oposto, matando na raíz qualquer verdadeira resistência.

OUTRAS FORMAS DE SABOTAGEM
Referi-me a uma das formas de sabotagem da liberdade de expressão.

Mas outras existem, como a censura direta aos comentadores mais incómodos. Em algumas publicações, como o Correio da Manhã ou o Record, verifiquei que os meus comentários eram barrados sistematicamente (os sites dispõem de detetores da identidade IP da máquina fonte dos comentários, é fácil bloquear qualquer participante).

Outros, como o Público ou a Visão, são mais seletivos, apenas alguns comentários não são publicados; na Visão, é difícil ser o primeiro a comentar, mesmo quando não há ainda nenhum comentário a um dado artigo.

No Público, deparei há dias com uma notícia sobre a TAP cheia de comentários da privataria avacalhando a companhia. Quando, mesmo sondagens "insuspeitas" - como as do pasquim CM - mostram que 80% dos portugueses são contra a privatização, como é possível APENAS existirem comentários em sentido contrário nesta notícia? Só um ingénuo pensará que não há ali trabalhinho das agências.

Outro método frequente é  retirar de imediato  qualquer matéria com muitos comentários contundentes para o sistema. Então, ou é colocada a mesma notícia retocada e limpa de comentários, ou  a matéria desaparece e entra uma nova em seu lugar.

O leitor comum não se apercebe destes truques e julga ser tudo  muito normal.

UMA LÓGICA COMPULSIVAMENTE ALIENANTE 
Mas há toda uma lógica profundamente anti-democrática nestas práticas. O simples cidadão torna-se um joguete manipulado.

Recentemente, descobri que o motor da Google guarda os gostos e visitas a páginas de cada utilizador, e foi configurado de modo a que as suas buscas sejam orientadas de acordo com os interesses que a Google acha que ele tem. Assim, dois utilizadores, fazendo uma busca no mesmo momento, na mesmo região e com a mesma expressão, raramente obtêm os mesmos resultados. Espantoso, não é?

Num sistema consumista, já de si cheio de convites à alienação, os ritmos desgastantes de trabalho levam cada um a procurar relaxar ao fim do dia, e fá-lo geralmente de forma alienante em frente a uma TV ou a uma consola de jogos, ou mesmo num vício mais grave como o álcool ou a droga.

E como se não bastasse, é montada toda esta parafernália que impede a pessoa de se esclarecer através do acesso à informação rigorosa e plural. Nada como ação preventiva,  não vá algum zombi acordar e revoltar-se.

Entretanto, se espera que as medíocres e coniventes direções da maioria dos partidos façam alguma coisa a sério -  o melhor mesmo é esperar sentado - nunca vai acontecer.