19/10/2014

Uma passagem pelas TVs internacionais


- França


Novas iniciativas francesas - um toque de prestigitação.

O casal que tenta explorar trufas colhidas nas florestas da sua região.
A senhora da Córsega que abre um negócio de bolachinhas "macarroni".
As moças sócias que produziam hortícolas, mas falham, e tentam agora montar no seu terreno um camping de apoio, junto à estrada.

Tudo experiências sem qualquer continuidade garantida, supostas formas de combater a crise do desemprego no país, particularmente o desemprego jovem.

O caso mais interessante é o do jovem licenciado que herdou a vinha do pai (no vale do Loire - vinhos pouco conhecidos) mas que, devido à concorrência e ao estreitamento do mercado interno decide voltar-se para os EUA tentando salvar a vinha.

Mete-se no avião, umas garrafas de vinho e algumas pedras do seu  "terroir" na mala, e avança na promoção directa com o apoio dum 'marchand' francês local, no estado da Carolina do Norte....

Frases que ficaram no ouvido:

 .... "os EUA são muito diferentes da imagem decadente que eu tinha ao embarcar", "Carolina do Norte, um estado rico com gente atlética que pratica jogging na rua e cultiva o bom gosto"; "Com estas vendas, vou conseguir salvar a vinha de família".

Conclusão:

Em França, como cá, a treta vendida pelas TVs é a mesma, Só que mais eficiente, servida com uns toques de prestigitação e da famosa elegância francesa.

Se o país "não dá", a culpa é da população que 'não é empreendedora'.
E tem é que se virar para o estrangeiro.

E para onde? Nada mais nada menos - damas e cavalheiros - que para os "maravilhosos" Estados Unidos, o tal país que dá a volta a todas as crises.

Podem aplaudir, senhoras e senhores, meninas e meninos, e descansem:  não falaremos do dólar emitido sem controle,  não vá alguém apanhar uma indigestão...



- RAI - Itália

Debates políticos italianos. 

Que diferença, a atitude dos políticos italianos para os portugueses! Inimaginável o 1º ministro e outros ministros daqui sentarem-se lado a lado com o público e representantes da oposição questionados em direto e na cara, por vezes de forma dura, e não fugirem às questões...

A Itália pode ter defeitos: talvez falem demais (em Portugal, há é silêncios a mais, sobretudo dos políticos), talvez gesticulem mais do que concretizam, talvez o Papa tenha demasiado tempo de antena.... mas que por lá há muito mais espontaneidade e clareza, isso há...

Nota curiosa: o debate, sobre a reforma nos impostos, é introduzido por uma reportagem da RAI em... França, país onde muitos casais estão optando por ter 3 filhos, por ali existir um forte incentivo às famílias numerosas (3 filhos já dá direito a essa classificação) e embora um ou dois filhos garanta bons apoios, eles aumentam muito com o 3º filho e as deduções nos impostos chegam aos... 6.000 euros por ano!

Não acompanhei este debate italiano até ao fim, mas pelo exemplo  vê-se a diferença de temas e de estilo: enquanto em Itália se discutem os incentivos às famílias (claro, dada a crise, também se discutem cortes, como o dos músicos da ópera de Milão, que no entanto são trabalhadores privilegiados - já sobre o milhão de novos pobres recentes em Itália a RAI fala muito pouco)...

...entretanto por cá aceita-se passivamente a redução do IRC que beneficia os grandes grupos económicos enquanto se mantêm congelados os cortes nos rendimentos e as sobretaxas de IRS e o IVA, que punem sobretudo os trabalhadores e os micro-pequenos empresários, num país que já tem dos mais baixos salários da UE.


SIC internacional - Portugal

Falando sobre o mau tempo.


Num país em fase aberta de demolição, com  aposentados e funcionários roubados dos direitos básicos como em nenhuma parte do mundo, com os principais grupos empresariais desmantelados e vendidos à peça ao estrangeiro...

... políticos da oposição reunem-se em amena cavaqueira com uma das responsáveis por tudo isto, a ministra das Finanças, aceitando ser filmados na conversa que ela mesma dirige para o mau tempo; os partidos saem do encontro com declarações brandas, ficando-se na dúvida sobre que raio de oposição eles fazem... Apenas os Verdes - a quem aliás ninguém dá grande crédito - fazem o número do "polícia mau" e lá emitem umas frases mais rijas. Mas nada de especial, toda a gente sabe que são  só palavras, o  costume...

Sem mais comentários.


10/10/2014

AS VERDADEIRAS CAUSAS DA CRISE

Desde há bastante tempo - e pelo menos em parte promovida por setores ultracapitalistas - está em curso uma enorme campanha que aponta as baterias à corrupção, ao Estado e a todos os políticos.   

Compreende-se o seu sucesso: as pessoas, fartas de serem trituradas, mas muito despolitizadas e desconhecedoras da verdadeira natureza do sistema, caem na armadilha e ficam vulneráveis para apoiar o próximo espertalhão que os grandes bancos mundiais ponham a (des)governar mais uma vez o País - sempre com palavras como "rigor" e "honestidade" na boca.

Quase todas as ditaduras mais sanguinárias e criminosas foram precedidas de campanhas demagógicas prometendo um novo regime cheio de moral e bons costumes. 

Mas a verdade sobre o peso da corrupção em Portugal é outra, e tem que ser dita mesmo que não renda popularidade fácil:

- Os gastos com cargos politicos  e  com a corrupção - por muito antipáticos ou mesmo repugnantes que sejam -  não valem  mais que alguns (poucos)  pontos percentuais  no orçamento do Estado e no PIB (pelo menos em Portugal, que é o 33º país menos corrupto, numa lista de 177 países - confira clicando aí).

A PROVA DOS ESTUDOS ACADÉMICOS

Numa tese académica, Conceição Castro coloca Portugal num nível médio de percepção da corrupção entre os 27 membros da UE.

E é de observar que o estudo incide sobretudo na Europa dos 15, não na UE27, portanto compara Portugal com uma exigente élite europeia de países. 

Ela diz em determinado ponto que:

«Na UE15, a remuneração média na função pública é muito superior nos países nórdicos, onde a corrupção é muito baixa. 
Portugal é o segundo estado-membro dos 15 com remunerações mais baixas».
E mesmo assim a autora conclui que Portugal e Espanha se situam num nível médio de "percepção de corrupção". Cfr. aqui.

Um outro interessante estudo é o do blogue No Reino da Dinamarca, onde André Barata defende que a crise tem causas mais complexas que a simples corrupção, que vão desde a desigualdade, medida pelo índice de Gini, até à História do país, à complicação das leis e à ineficácia do Estado. 
Cfr. aqui.


OS FACTORES EXTERNOS COMO CAUSAS DO ENDIVIDAMENTO

Num só DIA, movimenta-se mais dinheiro especulativo nas bolsas de valores mundiais que todo o PIB dum ANO INTEIRO em Portugal.  E Portugal, no entanto, tem um PIB superior a 135 outros paises comparados num universo  de 188 (veja o ranking aqui).

O maior banco mundial, Goldman Sachs (onde andaram o Mario Draghi do BCE e o Carlos Moedas, ex-governo e novo Comissário europeu) - só esse superbanco que mexe com toda a economia mundial incluindo a portuguesa, segundo o seu presidente, realiza 1.000 transações por minuto nas bolsas.
Conferir aqui.

Alguns, como Medina Carreira, chegaram a proclamar que a troika viria moralizar Portugal. Quando na verdade as troikas não passam de empregados dos superbancos mundiais, em particular do Goldman Sachs.

Alguém consegue acreditar que o tsunami que atingiu Portugal em 2011 não teve nada a ver com esses corruptos especuladores internacionais?  

Ora... haja informação!


E sendo Portugal um país bem situado no ranking mundial dos PIBs (confira em baixo) mesmo assim a força desse tsunami especulativo não poderia deixar de causar profundos estragos, como é óbvio, e pelo motivo exposto pouco acima, no início deste tópico.

Para além disso, recordemos que a crise resulta fundamentalmente - cfr. As Causas da Crise - da balança de pagamentos,com estagnação das exportações, e declínio das remessas de emigrantes, além da quebra do investimento externo, frutos da adesão ao euro e consequente alta do preço das nossas exportações, e da queda da taxa de juro que remunera os depósitos.

Ninguém espere que eu absolva a corrupção interna ou a conivência, em maior ou menor grau, de todos os partidos - mesmo daqueles que fazem o "número" mais ou menos teatral duma oposição radicalizada.

Eles são também um dos factores da crise.
 

Não podemos é fazer o jogo dos que desviam  a atenção dos factores externos - em particular o papel da CEE-UE no desmantelamento da produção nacional  - e bem assim da gravidade das atuais políticas, ditas de austeridade, na verdade uma pura pilhagem - principais factores do afundamento do País.

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RANKING DOS PIBs 
Fonte: FMI Ano: 2013
PIB corrigido das ppc - paridades do poder de compra

Países por ordem do PIB, ppc PIB (milhares de milhões dóls. EUA) População (milhões habitantes)
Países por ordem do PIB per capita, ppc PIB per capita, ppc (dóls. EUA)






1º   EUA 16.768,1 308,7
1º Qatar 145.894
2º   China 16.149,1 1.338,6
2º Luxemburgo 90.333
3º   Índia 6.776,0 1.210,2
3º Singapura 78.762
4º   Japão 4.667,6 127,4
4º Brunei 73.823
5º   Alemanha 3.512,8 81,7
5º Koweit 70.785
6º   Rússia 3.491,6 142,9
6º Noruega 64.363
7º   Brasil 3.012,9 202,7
7º E.Árabes Unid. 63.181
8º   França 2.534,5 65,4
8º San Marino 62.766
9º   Indonésia 2.389,0 252,1
9º Suiça 53.977
10º Reino Unido 2.320,4 63,1
10º Estad. Unidos 53.001
11º México 2.058,9 118,4


12º Itália 2.035,4 60,8
17º Alemanha 43.475
13º Coreia do Sul 1.697,0 50,2






20º Canadá 43.253
15º Canadá 1.518,4 35,5
21º Dinamarca 43.080
16º Espanha 1.488,8 46,7


17º Turquia 1.443,5 76,7
25º Finlândia 40.045
18º Irão 1.244,3 77,2
26º França 39.813
19º Austrália 1.052,6 23,6
27º Japão 36.654
20º Nigéria 972,6 174,5
28º Reino Unido 36.208




29º Itália 34.103
23º Argentina 927,9 42,7
30º Coreia do Sul 33.791
24º Egipto 909,8 87,3


25º Polónia 896,8 38,5
32º Nova Zelândia 33.626
26º Paquistão 835,1 196,1
33º Israel 32.717




34º Espanha 31.942
29º África do Sul 662,6 54,0






42º Portugal 25.643
33º Venezuela 553,3 28,9


34º Argélia 522,6 32,5
44º Grécia 25.126
35º Iraque 499,6 36,0


36º Bangla Desh 496,0 156,6
46º Rússia 24.298
37º Vietnam 475,0 92,5






53º Chile 22.534
44º Ucrânia 392,5 44,3
54º Argentina 22.363
47º Peru 357,6 28,7
62º Turquia 18.874




63º Venezuela 18.453
51º Grécia 278,0 10,8






66º México 17.390
53º PORTUGAL 268,8 10,5


54º Israel 257,5 8,1
71º Irão 16.165
55º Marrocos 241,7 33,3


56º Dinamarca 240,9 5,6
76º Brasil 14.987






59º Finlândia 218,3 5,3
78º Iraque 14.367






64º Angola 166,1 20,9
85º África do Sul 12.507






69º Nova Zelândia 150,7 4,5
87º Rep.Dominicana 12.173






71º Rep. Dominicana 126,8 10,0
89º China 11.868






120º Moçambique 27,0 20,1
91º Perú 11.557






137º Haiti 17,6 10,0
96º Egipto 10.870






150º Timor-leste 9,2 1,2
101º Indonésia 9.635






164º Cabo Verde 3,2 0,5
106º Ucrânia 8.651






169º Guiné Bissau 2,4 1,5
110º Angola 7.968






182º S. Tomé e Príncipe 0,6 0,2
113º Timor-leste 6.678






188º Tuvalu 0,03 0,01
122º Cabo Verde 6.248










125º Nigéria 5.746




126º Índia 5.450




127º Vietnam 5.295










135º Paquistão 4.574










143º Tuvalu 3.168




144º Bangla Desh 3.167










149º S.Tomé e Príncipe 2.999










167º Haiti 1.703










176º Guiné-Bissau 1.411

07/10/2014

NOVOS TIPOS DE ARMAS SECRETAS

Pode ler  este comentário no meu segundo blogue, clicando na imagem a seguir

http://ruitojal.blogspot.com.br/
Vários países têm em execução programas secretos para novos tipos de armas
 

Não é difícil acreditar que estejam sendo desenvolvidas novas armas de destruição, maciça ou seletiva, ante as ameaças de desmoronamento do império económico americano-sionista.

Que assenta hoje, já não numa economia produtiva como no passado, mas numa economia artificial e especulativa  que só se mantém dominante  pela emissão maciça de moeda, o que lhe é fácil pelo (ainda) predomínio do dólar e o controle sobre as principais praças financeiras mundiais e a extensa rede de paraísos fiscais.

Mas não vai durar muito mais,  até porque causa graves prejuízos ao resto do mundo.

Como se vê com a atual crise, nada mais que um reflexo desse sistema parasitário em que as potências capitalistas dominantes  e grandes grupos  vivem à custa do resto do mundo.

Prosseguir na leitura do artigo



01/10/2014

SITUAÇÃO POLÍTICA BLOQUEADA NUM PAÍS EM DEMOLIÇÃO

A atual situação política em Portugal encontra-se num verdadeiro bloqueio.

O sistema partidário vigente tem um espaço cada vez mais estreito entre 
os grandes interesses globais, por um lado, e a revolta das populações, por outro.

A tendência revelada pelos últimos atos eleitorais (autárquicas e europeias) é a dum número maioritário de eleitores que não se revê nos atuais partidos, com níveis de abstenção entre os 55% e os 65%.


É claro que uma parte desses "descrentes" no sistema são pessoas pouco informadas política e economicamente.   Mas o mesmo se passa com  os "crentes" que os partidos ainda conseguem cativar para o voto.

Não há diferença fundamental. Basta acompanhar os debates nos muitos grupos e plataformas da internet para perceber o nível confrangedor da grande maioria dos comentários - venham eles de abstencionistas ou de militantes partidários.

Os partidos não aprendem as lições e persistem no autismo, limitando-se à defesa acirrada dos seus feudos clientelares, sem qualquer criatividade que ilumine novos caminhos.

A recente "eleição primária" no PS apenas confirma a análise anterior: o novo líder do PS acredita piamente que vai reeditar a cavalgada vitoriosa que teve em Lisboa. Mas provavelmente engana-se. A História só se repete sob a forma de comédia.

O povo, com o poder de compra, a vida e o emprego esmagados,  mesmo com os jogos de espelhos e os truques dos partidos,  não se vai deixar embalar por táticas eleiçoeiras requentadas ainda que revestidas de  novas roupagens.

A clique P&P prossegue pois impunemente a função em que foi investida pela UE: comissão liquidatária do País. Vendendo ao desbarato os mais importantes ativos nacionais e alimentando o monstro da insustentável dívida pelo saque contínuo aos idosos e reformados, aos funcionários públicos, aos micro-pequenos empresários, aos jovens, ao operariado e ao povo em geral, e bem assim pelo esvaziamento das funções do Estado.

Os partidos da oposição, ao invés de desmontarem no terreno da luta real o saque a que as populações são submetidas, limitam-se à ação parlamentar ou a pseudo-lutas simbólicas, e mesmo estas cada vez mais escassas ante a profunda descrença das suas próprias bases.

Estamos pois chegando a um ponto em que uma mudança no quadro partidário se impõe, seja qual for o novo elemento que a incorpore.

E esse novo dado ou elemento, tanto pode vir duma nova força democrática-popular e dum programa patriótico claro, como pode ao invés surgir de um demagogo qualquer que explore sentimentos primários como o racismo e a xenofobia, ou assentar em grupos e regiões já privilegiados ou qualquer outra base.

Os meses que se seguem poderão ser decisivos para definir o futuro.

Aliás, decisivos para definir se Portugal ainda tem qualquer futuro, ou se pelo contrário se encaminha para o estatuto de província periférica duma UE e duma Espanha domesticadas elas mesmas pela rule alemã concatenada com o império americano-sionista do dólar e em equilíbrio instável com os novos imperialismos das potências ascendentes, em particular o imperialismo chinês.

Um Portugal que, ao invés de reocupar o seu espaço na História, definharia no lamaçal da pobreza e da pusilanimidade dos que não ousam levantar a cabeça e lutar.

Urge agir e voltar a entoar em coro as antigas canções da Resistência - tão necessária agora para enfrentar um fascismo internacional de tipo novo promovido pelo terrorismo especulativo financeiro e que, por isso mesmo, alguns não conseguem identificar como tal:

"Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz NÃO ".  






29/08/2014

QUE ARTICULAÇÕES DE PORTUGAL COM ESPANHA?


Tomando uma pequena polémica surgida entre mim e o Vitor Lima no Facebook, no grupo Contra a Entrada de Dinheiro Público no BES, sobre que tipo de ligação é a mais conveniente entre os movimentos populares portugueses e os espanhóis,  aproveito para expor algumas ideias sobre este assunto essencial à  definição do movimento popular e democrático e duma verdadeira resistência em Portugal.


Espanha não existe, somente o estado espanhol, com N identidades culturais e nacionais que não apreciam a histórica dominação de Madrid.
Há dinâmicas alternativas e libertárias na Catalunha (…) movimentos anti-militaristas organizados (…) uma organização nacional pela suspensão da dívida, [enquanto aqui há] uma tal IAC reacionária e sectária que nunca foi além da reestruturação da dívida (…) movimentos feministas radicais como las Mujeres de Negro sem correspondência aqui (...) movimento ecologista e aqui tens essa caricatura de Os Verdes e o ecologismo tecnocrático da Quercus (…) lá uma PAH contra os despejos e aqui, o que há?
(…) Para além das CCOO e da UGT com parentescos com burocracias locais tens uma CNT, bem ativa e em crescimento, para além da CGT, ambas anarquistas.
E movimento anarquista aqui, vai além de alguns grupos mais ou menos identitários?” - Vitor Lima

Preferia não responder cabalmente ao comentário acima sem uma prévia atualização dos meus “dados espanhóis” - na verdade, temas mais urgentes têm-me feito desligar um tanto da situação em Espanha. 

Mas a urgência do debate político não se compadece, pelo que arrisco uma breve resposta desde já.

TIQUES AUTORITÁRIOS DO ESTADO ESPANHOL

Recorro ao meu arquivo mental de leituras e das muitas visitas que fiz a Espanha (as duas últimas foram, usando vários meios de transporte:
2005 - Múrcia, Valência, Madrid, Donostia; 2011 - Sevilha.

Como curiosidade, em Donostia (San Sebastian), acabei perseguido pela polícia secreta, após ter tentado trocar umas palavras, por mera curiosidade, com um manifestante independentista (grave erro  :P esqueci-me que o aparelho de terror franquista nunca foi desmantelado em Espanha...). 

Resultado: tive de recorrer nos dias seguintes aos meus melhores conhecimentos dos tempos da resistência anti-pidesca para os despistar, mas vi o caso mal parado, e isso sem ter feito... rigorosamente nada, estava ali apenas numa visita turística para sentir um cheirinho do Euskadi real.

E bota cheirinho nisso!”...Uma sociedade profundamente dividida, com tiques de esquizofrenia securitária do setor castelhanófilo e dos colaboracionistas locais contra os independentistas. 

O que, certamente, para o novo populismo do partido "Podemos" não deverá ter relevância.

AS AUTONOMIAS ESPANHOLAS

Fora isso, quase tudo o que Vitor Lima (VL) diz é verdade. Em Espanha existem mais organizações e também mais participação nas mesmas.

Mas há que considerar que lá eles são 40 e tal milhões e os portugueses apenas 10 milhões. E há que questionar o sentido e a consistência dessas "organizações de base” espanholas.

Quanto às “autonomias” elas são diferenciadas, desde as fortemente independentistas (Euskadi, Catalunha, um setor radical da Galiza, das Baleares e de Valência), às simples províncias castelhanas que querem apenas mais uns trocados nos orçamentos.

Mas mesmo nas autonomias nacionalistas há um setor castelhanista importante, como se sabe, que vota sobretudo PSOE e PP.

Uma militante espanhola do "Podemos" garantia-me recentemente no Face que os espanhóis são todos parecidos (na ação política) independentemente de alguns quererem a independência outros não. Imagino que seja uma opinião que represente bem o que pensa o "Podemos" espanhol. 

O qual certamente gostaria dum “Podemos” português e de ver Portugal como mais uma “provincia autonómica” espanhola.

É interessante observar que as partes mais desenvolvidas de Espanha (exceto Madrid, lógico) queiram separ-se dela, e só não o façam pela intransigência do Estado neofranquista que proibe o referendo, enquanto em Portugal, um dos países mais antigos da Europa, haja quem ache natural uma integração no Estado espanhol. 

É no minimo, perplexizante e triste.

GALIZA  Vs. NORTE PORTUGUÊS

Em Portugal, particularmente no Porto, uma certa intelectualidade gosta de falar em nome dum "norte" imaginário e cultivar o mito duma Galiza igualzinha a esse Norte mítico. Ideia falsa, que só não desenvolvo aqui por economia do texto.

Sendo eu originário desse norte, é assunto que analiso há muito e que exigiria vários desenvolvimentos. 

Referirei apenas que, nem é verdade a uniformidade étnica do nosso norte, nem que esta Galiza aculturada por séculos de Espanha seja uniforme e igual sequer ao próprio Minho - região que lhe é mais próxima, mas nem por isso menos tipicamente portuguesa em todos os aspectos.

É daquelas situações típicas na política em que as evidências saltam aos olhos, mas uma formatação ideológica e mental das pessoas as leva à obliteração grosseira da realidade.
 

A NATUREZA  DO ESTADO ESPANHOL
 
Essa razão e as lutas autonómicas bem como o lastro da guerra civil tornaram [os espanhóis] mais interventivos e comunicativos” - V.L.

Que as pessoas em Espanha, genericamente, têm esse carácter, é certo. Não me parece é que haja tal relação de causalidade. 

A comunicabilidade e a iniciativa - a par dum espírito associativo - têm a ver com idiossincracias profundas do povo espanhol, não com o “lastro da guerra civil e das lutas autonómicas”.

Se fossemos por aí, o lastro do genocídio franquista - vulgo, guerra civil, onde morreu quase meio milhão de pessoas - esse lastro negro é sobretudo o da impunidade dos golpistas de 1936 e dos genocidas franquistas, até hoje.

Uma prova é a recente ostracização do “super juíz” Baltazar Garzón, a mando de setores reacionários do aparelho judicial. Que afinal continuam no comando, contrariando o folclore “muy progresista” dos julgamentos do Pinochet promovidos por Garzón, bem típicos desse show off espanhol de que falava acima.

Mesmo sendo Portugal o dos brandos costumes, e tendo havido muito safado pidesco por punir, houve apesar de tudo aqui uma menor impunidade dos esbirros autoritários já que os lideres salazaristas foram exilados e as principais estruturas fascistas foram extintas ou alteradas na sua natureza.

Aliás, em Portugal houve uma apropriação coletiva dos grandes meios de produção e um processo político radical que atingiu o cerne das próprias FFAA, o que nunca sucedeu em Espanha.

Ali, o que houve foi uma transição pacífica para a “democracia” capitalista, tornada aliás inevitável pelo nosso 25A74. Historicamente, neste caso, é Portugal que precede Espanha e não o contrário.

Apenas a ETA e um punhado de militantes como os Grapo mantiveram resistência armada após o fim oficial do franquismo.

E hoje o que temos em Espanha? O esmagamento das alternativas mais radicais e, em certo sentido, mais íntegras. Não estando com isto a avalizar os métodos dos grupos em causa - desde os anos 80 que defendo, aliás, que eles deviam ter infletido para a luta política. 

Mas a verdade é que quem sai vencedor são forças burguesissimas - a parte castelhana e as burguesias nacionais basca e catalã, cujos capitalismos são hoje os mais desenvolvidos da península.

Portanto, demonstrei que as autonomias e a guerra civil não têm nada a ver com essa tal maior iniciativa dos espanhóis.

Tal “argumento”, ainda que sem intenção, corre o risco de apenas dourar a pílula duma suposta futura “autonomia portuguesa” no seio duma "grande Espanha". Ou quiçá, noutra alternativa mas a dar no mesmo, uma macroregião Norte-Galiza num Estado espanhol centrado em Madrid por substituição do pretenso centralismo de Lisboa.

(pretenso, porque não há centralismo num país da dimensão de Portugal, quando muito há opacidade e parasitismo de máfias - o que é diferente).

A situação desses parasitismos mafiosos em Espanha, não a conheço em detalhe. Tivemos uma amostra com a salvação recente do Bankia e suas relações com os grandes partidos; ou nos escândalos da "família real" espanhola e seus negócios burlões. 

Mas podemos imaginar pelo que se vê em capitalismos evoluídos como o italiano ou o francês, cheios de Camorras, Nhandretas e lobbies poderosissimos (sionistas e não só) instalados no Estado e ligados aos grandes negócios, como em França, as armas e o nuclear.

Quanto a essas organizações de base, incluindo sindicatos, teríamos que analisar uma por uma a sua eficácia e papel. que ficará para uma próxima oportunidade.

MATURIDADE DO CAPITALISMO É QUE CONFIGURA A RESISTÊNCIA

No geral, parece-me que o capitalismo espanhol é mais articulado e maduro que o português, basta pensar nos grandes bancos espanhóis – Santander, BBVA, Popular, La Caixa – que são gigantes, os dois primeiros figurando nos 15 maiores mundiais e detendo fatias significativas do mercado na América latina, assim como filiais em países europeus e nos EUA. Mas há grupos relevantes noutros setores, como moda e retalho (ex: Zara), pescas, agropecuária, turismo e indústria.
 

Em Portugal também os há, é facto e ao contrário da opinião vulgar, mas à proporção do país. Conferir aqui.

E que é que isso tem a ver com as lutas populares? - perguntar-se-á.

Tem a ver que, apesar de todo o foguetório – muito à espanhola - tudo aponta para que esses movimentos são meras formas de luta NO INTERIOR do capitalismo, não CONTRA o capitalismo, seja qual for o rótulo de que se reclamem.

Também podemos apontar exemplos desses movimentos “avançados” - anarquistas, ecologistas, feministas, etc. - na Alemanha, na França, na Dinamarca, etc. – lembro que os anarquistas e ecologistas alemães, por exemplo - são altamente eficazes, fazendo frequentes manifestações com confrontos violentos com a polícia. 

Mas seria risível e quase anedótico garantir que o poderoso capitalismo central destes países sai minimamente beliscado por tais movimentos.

Resumindo: a um capitalismo maduro, correspondem formas de resistência maduras no interior do sistema que, apesar de vistosas, por norma não questionam a lógica do sistema, limitando-se a reivindicações parcelares que ele marginaliza e absorve com facilidade.

DOIS PROCESSOS HISTÓRICOS DISTINTOS

O processo histórico português recente é muito distinto do espanhol e superou-o em termos de lutas sociais e políticas, pelo menos após a guerra civil espanhola e o esmagamento dos republicanos pelo genocida Franco. 

E mesmo recentemente, as grandes manifestações de rua foram iniciadas em Portugal influenciando o posterior surgimento dos "Indignados" espanhóis.

O facto do capitalismo português ser menos articulado, haver uma urbanização e uma industrialização mais tardias – a par da dependência do exterior e das guerras coloniais - determinaram o formato das lutas populares, hegemonizadas por estruturas mais centralizadas, dogmáticas e rígidas, embora mais consistentes dentro do seu estilo que as espanholas (lembre-se a deriva “revisionista” do carrilhismo que marcou o PC espanhol, tornando residual o seu peso político comparado com o congénere português).

É o mesmo processo que
(ao contrário das FFAA espanholas) explica o desmoronamento da disciplina fascizante  nas forças armadas e policiais portuguesas , cuja radicalização após o 25A e o PREC foi sendo porém dissolvida pela corrupção (missões NATO e ONU no estrangeiro, infiltração por negócios diversos, etc.) tornando-as hoje – concordo – imprestáveis dum ponto de vista até  simplesmente patriótico (exceto alguns setores que embora residuais não devem ser menosprezados como VL o faz). 

As próprias polícias portuguesas – hoje bastante descontentes com a degradação que sofrem - terão mais potencial democrático que as espanholas, formatadas para reprimir os nacionalismos há décadas e que apesar da crise são decerto melhor pagas já que o nível de vida espanhol supera o português nuns 20%.

Parece-me pois que o processo português terá que seguir claramente uma via própria, muito diferente da espanhola, correspondente ao seu grau de amadurecimento, dependência e até degenerescência, como se vê com o BES e no maior endividamento do sistema capitalista em Portugal.


CONCLUSÕES

Alguns iludem-se com a ideia de superar a desmobilização popular em Portugal importando discursos estrangeiros ou mimetizando os movimentos espanhóis.

É um erro crasso, ditado por uma ideia de facilitismo na política e por um sentimento de impotência na construção duma verdadeira resistência ao saque e
à destruição de que o País vem sendo vítima.
 
Sejam quais forem as dificuldades, é EXCLUSIVAMENTE marchando pelas próprias pernas e pensando pela sua cabeça - nunca imitando outros - que se fará alguma coisa forte e importante.

E isso passa pelas idiossincracias nacionais de cada povo, logo pela defesa da sua identidade como nação, por muito que isso desagrade aos antinacionalistas refugiados num suposto guarda-chuva anti-capitalista.

Em todos as grandes ameaças históricas externas aos países (exs: Rússia, China, etc.), a vitória só foi possível recorrendo à mobilização patriótica unitária contra essas ameaças.

Combater APENAS os corruptos internos e esquecer as causas externas (que são as principais) como o ataque dos especuladores em 2010/11 que determina a “crise” portuguesa, isso é profundamente errado.
 
Além do mais, resulta num branqueamento das responsabilidades do podre e parasitário capitalismo mundial, financeirizado e especulativo na atual fase.

E note-se que com isto não excluo todo o tipo de cooperação internacional, particularmente entre os países e povos da Europa do sul. 

Há muito que considero ser essencial uma tal coligação no combate ao bloco burocrático europeu liderado pela Alemanha, respaldada pelo império do dólar.

Só que é mais provável acabar por ser Portugal a puxar pelos outros nesse processo que eles por nós. 

É paradoxal, mas a vida muitas vezes surpreende-nos ao destruir aparências dadas por adquiridas.