29/08/2014

QUE ARTICULAÇÕES DE PORTUGAL COM ESPANHA?


Tomando uma pequena polémica surgida entre mim e o Vitor Lima no Facebook, no grupo Contra a Entrada de Dinheiro Público no BES, sobre que tipo de ligação é a mais conveniente entre os movimentos populares portugueses e os espanhóis,  aproveito para expor algumas ideias sobre este assunto essencial à  definição do movimento popular e democrático e duma verdadeira resistência em Portugal.


Espanha não existe, somente o estado espanhol, com N identidades culturais e nacionais que não apreciam a histórica dominação de Madrid.
Há dinâmicas alternativas e libertárias na Catalunha (…) movimentos anti-militaristas organizados (…) uma organização nacional pela suspensão da dívida, [enquanto aqui há] uma tal IAC reacionária e sectária que nunca foi além da reestruturação da dívida (…) movimentos feministas radicais como las Mujeres de Negro sem correspondência aqui (...) movimento ecologista e aqui tens essa caricatura de Os Verdes e o ecologismo tecnocrático da Quercus (…) lá uma PAH contra os despejos e aqui, o que há?
(…) Para além das CCOO e da UGT com parentescos com burocracias locais tens uma CNT, bem ativa e em crescimento, para além da CGT, ambas anarquistas.
E movimento anarquista aqui, vai além de alguns grupos mais ou menos identitários?” - Vitor Lima

Preferia não responder cabalmente ao comentário acima sem uma prévia atualização dos meus “dados espanhóis” - na verdade, temas mais urgentes têm-me feito desligar um tanto da situação em Espanha. 

Mas a urgência do debate político não se compadece, pelo que arrisco uma breve resposta desde já.

TIQUES AUTORITÁRIOS DO ESTADO ESPANHOL

Recorro ao meu arquivo mental de leituras e das muitas visitas que fiz a Espanha (as duas últimas foram, usando vários meios de transporte:
2005 - Múrcia, Valência, Madrid, Donostia; 2011 - Sevilha.

Como curiosidade, em Donostia (San Sebastian), acabei perseguido pela polícia secreta, após ter tentado trocar umas palavras, por mera curiosidade, com um manifestante independentista (grave erro  :P esqueci-me que o aparelho de terror franquista nunca foi desmantelado em Espanha...). 

Resultado: tive de recorrer nos dias seguintes aos meus melhores conhecimentos dos tempos da resistência anti-pidesca para os despistar, mas vi o caso mal parado, e isso sem ter feito... rigorosamente nada, estava ali apenas numa visita turística para sentir um cheirinho do Euskadi real.

E bota cheirinho nisso!”...Uma sociedade profundamente dividida, com tiques de esquizofrenia securitária do setor castelhanófilo e dos colaboracionistas locais contra os independentistas. 

O que, certamente, para o novo populismo do partido "Podemos" não deverá ter relevância.

AS AUTONOMIAS ESPANHOLAS

Fora isso, quase tudo o que Vitor Lima (VL) diz é verdade. Em Espanha existem mais organizações e também mais participação nas mesmas.

Mas há que considerar que lá eles são 40 e tal milhões e os portugueses apenas 10 milhões. E há que questionar o sentido e a consistência dessas "organizações de base” espanholas.

Quanto às “autonomias” elas são diferenciadas, desde as fortemente independentistas (Euskadi, Catalunha, um setor radical da Galiza, das Baleares e de Valência), às simples províncias castelhanas que querem apenas mais uns trocados nos orçamentos.

Mas mesmo nas autonomias nacionalistas há um setor castelhanista importante, como se sabe, que vota sobretudo PSOE e PP.

Uma militante espanhola do "Podemos" garantia-me recentemente no Face que os espanhóis são todos parecidos (na ação política) independentemente de alguns quererem a independência outros não. Imagino que seja uma opinião que represente bem o que pensa o "Podemos" espanhol. 

O qual certamente gostaria dum “Podemos” português e de ver Portugal como mais uma “provincia autonómica” espanhola.

É interessante observar que as partes mais desenvolvidas de Espanha (exceto Madrid, lógico) queiram separ-se dela, e só não o façam pela intransigência do Estado neofranquista que proibe o referendo, enquanto em Portugal, um dos países mais antigos da Europa, haja quem ache natural uma integração no Estado espanhol. 

É no minimo, perplexizante e triste.

GALIZA  Vs. NORTE PORTUGUÊS

Em Portugal, particularmente no Porto, uma certa intelectualidade gosta de falar em nome dum "norte" imaginário e cultivar o mito duma Galiza igualzinha a esse Norte mítico. Ideia falsa, que só não desenvolvo aqui por economia do texto.

Sendo eu originário desse norte, é assunto que analiso há muito e que exigiria vários desenvolvimentos. 

Referirei apenas que, nem é verdade a uniformidade étnica do nosso norte, nem que esta Galiza aculturada por séculos de Espanha seja uniforme e igual sequer ao próprio Minho - região que lhe é mais próxima, mas nem por isso menos tipicamente portuguesa em todos os aspectos.

É daquelas situações típicas na política em que as evidências saltam aos olhos, mas uma formatação ideológica e mental das pessoas as leva à obliteração grosseira da realidade.
 

A NATUREZA  DO ESTADO ESPANHOL
 
Essa razão e as lutas autonómicas bem como o lastro da guerra civil tornaram [os espanhóis] mais interventivos e comunicativos” - V.L.

Que as pessoas em Espanha, genericamente, têm esse carácter, é certo. Não me parece é que haja tal relação de causalidade. 

A comunicabilidade e a iniciativa - a par dum espírito associativo - têm a ver com idiossincracias profundas do povo espanhol, não com o “lastro da guerra civil e das lutas autonómicas”.

Se fossemos por aí, o lastro do genocídio franquista - vulgo, guerra civil, onde morreu quase meio milhão de pessoas - esse lastro negro é sobretudo o da impunidade dos golpistas de 1936 e dos genocidas franquistas, até hoje.

Uma prova é a recente ostracização do “super juíz” Baltazar Garzón, a mando de setores reacionários do aparelho judicial. Que afinal continuam no comando, contrariando o folclore “muy progresista” dos julgamentos do Pinochet promovidos por Garzón, bem típicos desse show off espanhol de que falava acima.

Mesmo sendo Portugal o dos brandos costumes, e tendo havido muito safado pidesco por punir, houve apesar de tudo aqui uma menor impunidade dos esbirros autoritários já que os lideres salazaristas foram exilados e as principais estruturas fascistas foram extintas ou alteradas na sua natureza.

Aliás, em Portugal houve uma apropriação coletiva dos grandes meios de produção e um processo político radical que atingiu o cerne das próprias FFAA, o que nunca sucedeu em Espanha.

Ali, o que houve foi uma transição pacífica para a “democracia” capitalista, tornada aliás inevitável pelo nosso 25A74. Historicamente, neste caso, é Portugal que precede Espanha e não o contrário.

Apenas a ETA e um punhado de militantes como os Grapo mantiveram resistência armada após o fim oficial do franquismo.

E hoje o que temos em Espanha? O esmagamento das alternativas mais radicais e, em certo sentido, mais íntegras. Não estando com isto a avalizar os métodos dos grupos em causa - desde os anos 80 que defendo, aliás, que eles deviam ter infletido para a luta política. 

Mas a verdade é que quem sai vencedor são forças burguesissimas - a parte castelhana e as burguesias nacionais basca e catalã, cujos capitalismos são hoje os mais desenvolvidos da península.

Portanto, demonstrei que as autonomias e a guerra civil não têm nada a ver com essa tal maior iniciativa dos espanhóis.

Tal “argumento”, ainda que sem intenção, corre o risco de apenas dourar a pílula duma suposta futura “autonomia portuguesa” no seio duma "grande Espanha". Ou quiçá, noutra alternativa mas a dar no mesmo, uma macroregião Norte-Galiza num Estado espanhol centrado em Madrid por substituição do pretenso centralismo de Lisboa.

(pretenso, porque não há centralismo num país da dimensão de Portugal, quando muito há opacidade e parasitismo de máfias - o que é diferente).

A situação desses parasitismos mafiosos em Espanha, não a conheço em detalhe. Tivemos uma amostra com a salvação recente do Bankia e suas relações com os grandes partidos; ou nos escândalos da "família real" espanhola e seus negócios burlões. 

Mas podemos imaginar pelo que se vê em capitalismos evoluídos como o italiano ou o francês, cheios de Camorras, Nhandretas e lobbies poderosissimos (sionistas e não só) instalados no Estado e ligados aos grandes negócios, como em França, as armas e o nuclear.

Quanto a essas organizações de base, incluindo sindicatos, teríamos que analisar uma por uma a sua eficácia e papel. que ficará para uma próxima oportunidade.

MATURIDADE DO CAPITALISMO É QUE CONFIGURA A RESISTÊNCIA

No geral, parece-me que o capitalismo espanhol é mais articulado e maduro que o português, basta pensar nos grandes bancos espanhóis – Santander, BBVA, Popular, La Caixa – que são gigantes, os dois primeiros figurando nos 15 maiores mundiais e detendo fatias significativas do mercado na América latina, assim como filiais em países europeus e nos EUA. Mas há grupos relevantes noutros setores, como moda e retalho (ex: Zara), pescas, agropecuária, turismo e indústria.
 

Em Portugal também os há, é facto e ao contrário da opinião vulgar, mas à proporção do país. Conferir aqui.

E que é que isso tem a ver com as lutas populares? - perguntar-se-á.

Tem a ver que, apesar de todo o foguetório – muito à espanhola - tudo aponta para que esses movimentos são meras formas de luta NO INTERIOR do capitalismo, não CONTRA o capitalismo, seja qual for o rótulo de que se reclamem.

Também podemos apontar exemplos desses movimentos “avançados” - anarquistas, ecologistas, feministas, etc. - na Alemanha, na França, na Dinamarca, etc. – lembro que os anarquistas e ecologistas alemães, por exemplo - são altamente eficazes, fazendo frequentes manifestações com confrontos violentos com a polícia. 

Mas seria risível e quase anedótico garantir que o poderoso capitalismo central destes países sai minimamente beliscado por tais movimentos.

Resumindo: a um capitalismo maduro, correspondem formas de resistência maduras no interior do sistema que, apesar de vistosas, por norma não questionam a lógica do sistema, limitando-se a reivindicações parcelares que ele marginaliza e absorve com facilidade.

DOIS PROCESSOS HISTÓRICOS DISTINTOS

O processo histórico português recente é muito distinto do espanhol e superou-o em termos de lutas sociais e políticas, pelo menos após a guerra civil espanhola e o esmagamento dos republicanos pelo genocida Franco. 

E mesmo recentemente, as grandes manifestações de rua foram iniciadas em Portugal influenciando o posterior surgimento dos "Indignados" espanhóis.

O facto do capitalismo português ser menos articulado, haver uma urbanização e uma industrialização mais tardias – a par da dependência do exterior e das guerras coloniais - determinaram o formato das lutas populares, hegemonizadas por estruturas mais centralizadas, dogmáticas e rígidas, embora mais consistentes dentro do seu estilo que as espanholas (lembre-se a deriva “revisionista” do carrilhismo que marcou o PC espanhol, tornando residual o seu peso político comparado com o congénere português).

É o mesmo processo que
(ao contrário das FFAA espanholas) explica o desmoronamento da disciplina fascizante  nas forças armadas e policiais portuguesas , cuja radicalização após o 25A e o PREC foi sendo porém dissolvida pela corrupção (missões NATO e ONU no estrangeiro, infiltração por negócios diversos, etc.) tornando-as hoje – concordo – imprestáveis dum ponto de vista até  simplesmente patriótico (exceto alguns setores que embora residuais não devem ser menosprezados como VL o faz). 

As próprias polícias portuguesas – hoje bastante descontentes com a degradação que sofrem - terão mais potencial democrático que as espanholas, formatadas para reprimir os nacionalismos há décadas e que apesar da crise são decerto melhor pagas já que o nível de vida espanhol supera o português nuns 20%.

Parece-me pois que o processo português terá que seguir claramente uma via própria, muito diferente da espanhola, correspondente ao seu grau de amadurecimento, dependência e até degenerescência, como se vê com o BES e no maior endividamento do sistema capitalista em Portugal.


CONCLUSÕES

Alguns iludem-se com a ideia de superar a desmobilização popular em Portugal importando discursos estrangeiros ou mimetizando os movimentos espanhóis.

É um erro crasso, ditado por uma ideia de facilitismo na política e por um sentimento de impotência na construção duma verdadeira resistência ao saque e
à destruição de que o País vem sendo vítima.
 
Sejam quais forem as dificuldades, é EXCLUSIVAMENTE marchando pelas próprias pernas e pensando pela sua cabeça - nunca imitando outros - que se fará alguma coisa forte e importante.

E isso passa pelas idiossincracias nacionais de cada povo, logo pela defesa da sua identidade como nação, por muito que isso desagrade aos antinacionalistas refugiados num suposto guarda-chuva anti-capitalista.

Em todos as grandes ameaças históricas externas aos países (exs: Rússia, China, etc.), a vitória só foi possível recorrendo à mobilização patriótica unitária contra essas ameaças.

Combater APENAS os corruptos internos e esquecer as causas externas (que são as principais) como o ataque dos especuladores em 2010/11 que determina a “crise” portuguesa, isso é profundamente errado.
 
Além do mais, resulta num branqueamento das responsabilidades do podre e parasitário capitalismo mundial, financeirizado e especulativo na atual fase.

E note-se que com isto não excluo todo o tipo de cooperação internacional, particularmente entre os países e povos da Europa do sul. 

Há muito que considero ser essencial uma tal coligação no combate ao bloco burocrático europeu liderado pela Alemanha, respaldada pelo império do dólar.

Só que é mais provável acabar por ser Portugal a puxar pelos outros nesse processo que eles por nós. 

É paradoxal, mas a vida muitas vezes surpreende-nos ao destruir aparências dadas por adquiridas.


04/08/2014

O caso BES e Passos: falar claro sobre irresponsabilidade e conivência

Uma excelente entrevista de Pedro Adão e Silva, sociólogo e ex-dirigente do PS (afastado há uns anos da militância partidária).

Não coincidindo a 100% com o que eu penso, tem a virtude de dizer preto no branco o que os partidos e outros agentes não disseram logo (fazem-no dias depois): a desresponsabilização por parte do chefe do executivo sobre um assunto tão crítico para o País, ao ponto de pôr em causa a pretensa recuperação económica.

É nesta altura que o 'homem do leme' vai a banhos tranquilamente para o Algarve e delega no Banco de Portugal a resolução desta grave crise nacional, não dando a cara.

A política em Portugal transformou-se num jogo mediático de marketing político, pelo que é absurdo dizer, como dizia o dirigente dum partido "operário" que "os jornalistas são apenas os mensageiros".  Não são. Eles são peças essenciais da política-manipulação de hoje, em que os media são a máquina trituradora para lavar o cérebro das "massas".

Aliás, logo a seguir o  líder "operário" referido apresentou-se engravatado e cheio de sorrisos ufanos numa entrevista a um canal principal, como se fosse natural um dirigente "marxista" aparecer em prime time numa TV "burguesa", ainda por cima numa fase em que o País era ocupado economicamente pela troika.  Algo não bate certo nisto tudo.

É só mais uma demonstração de dogmatismo - um dos principais fatores que impedem a oposição de derrubar este executivo - o qual tem como contraponto a debilidade pusilânime de toda a ação oposicionista.



Mas entretanto, o barco da governação, esse, vai claramente à deriva. Só o facto do comando estar fora do País, em Bruxelas ou Berlim, permite iludi-lo.


CLIQUE PARA OUVIR A ENTREVISTA DE ADÃO E SILVA:


31/07/2014

Espírito Santo: a lógica da batata

 


A conversa nos media é que a  limpeza decorrente da queda do grupo Espírito Santo vai abrir um período de  nova estabilidade. Mas este desejo piedoso é o mesmo que cair o pilar duma ponte e pensar que com isso ela fica mais estável. 
  
Em Portugal a lógica é realmente uma batata.

Há quem diga - como Sandro Mendonça, do ISCTE,
num interessante artigo - que os ativos do GES correspondem a 50% do PIB português. A intenção do autor será boa, mas é um exagero.
 

Porém, ainda que fossem apenas 15% do PIB, o impacto do desvio dos ativos do GES/BES para grupos estrangeiros (mesmo que mascarados de nacionais) serão tremendos, em termos de perda de centros de decisão nacionais.

O que, aliás, já se está a verificar: o gigantesco investimento turístico anunciado
na Comporta há cerca de um ano pelo ministro da economia, não vai para a frente. Soube-se hoje que a comissão luxemburguesa de credores disse: STOP.

Segundo outras notícias, o BES poderá perder o controle do BESA para o governo angolano. Ou seja, um banco português investe por décadas largos milhões em Angola, onde disponibiliza um serviço bancário de vanguarda, e poderá ter ZERO como resultado. Paradoxo
chocante: segundo a imprensa, há indícios de que os maiores calotes que levaram à insolvência do BESA foram dados por cidadãos angolanos.

O controle da própria PT, e desta sobre a Oi (recente) poderá também estar em risco. De  lembrar que a Oi é uma grande empresa, mas meio obsoleta - é muito frequente um cliente ligar para um telemóvel ativo e com rede, e receber a resposta "o número encontra-se desligado ou fora de área". Tudo porque esta, como outras operadoras brasileiras, não têm estrutura nem tecnologia adequadas à extensão da clientela e ao vasto território.

Ora a PT - que era uma empresa estatal de raíz e foi desse modo que desenvolveu tecnologia
de ponta e ganhou dimensão internacional, investiu centenas de milhões no Brasil, desde quando adquiriu  50% da VIVO - que aliás, muito beneficiou do know how da PT. E agora? Todo esse investimento, fruto de capitais acumulados pelo esforço de gerações de portugueses quando a PT era totalmente estatal, vai por água abaixo?

O controle do próprio BES-Portugal corre o risco de ir parar a mãos estrangeiras ante os gigantescos prejuízos que Vítor Bento - homem do círculo de Cavaco e da confiança da clique P&P - fez questão de divulgar de imediato. Ora todos sabem que qualquer grande grupo organiza convenientemente a contabilidade de modo a distribuir prejuízos por vários semestres ou entidades externas, sem com isso precisar de infrigir as leis. 


Basicamente, Bento o que faz é o papel dum coveiro que pinta o quadro o mais negro possível, para poder surgir como o salvador da massa falida e criar um choque  que torne irresistível a assunção pelo Estado dos prejuízos. Após a limpeza da parte tóxica, o grupo é entregue limpo aos abutres que entretanto foram aguçando o bico.

Para já, o efeito foi as ações do BES caírem para valores próximos do zero. Excelente jogada para paralisar críticas e tocar a manobra para os fins em vista. Começamos a entender, não é?

Foi com truques destes que nos últimos 40 anos se desmantelaram grandes grupos nacionais e se pôs a economia nas mãos de novos grupos privados.


Podia continuar a análise - a lista de empresas do universo GES é grande.
 
O mais interessante é que toda a gente - da esquerda à direita - critica o escândalo BES pondo sempre o foco exclusivamente na culpa do senhor A, B ou C, assim como no papel dos reguladores, do governo, da oposição ou de Sócrates. É uma preciosa ajuda ao banquete dos abutres que já sobrevoam a presa.

Por mim, aplaudo com as duas mãos a punição dos culpados. 


Não vou é juntar-me ao coro dos inocentes úteis ou dos cúmplices que a maior parte dos críticos constitui. 

A questão de fundo é outra. É a dum barco que levou um rombo, pondo em causa a sua flutuação.

Em vez de se  preocuparem com a salvação do barco e dos passageiros, vociferam "agarrem que é ladrão" e discutem quem foi o maior culpado.

A própria clique P&P através dos seus avençados nos media, ao invés de tapar o buraco logo no primeiro momento, mostrou-se mais preocupada em lançar cortinas de fumo e em atirar responsabilidades para terceiros.

É este o estado autofágico do País, com a politiqueirice fixada na imagem e no seu poderzinho serôdio, pouco importando o naufrágio coletivo anunciado.


Quando os turcos invadiram Constantinopla foi assim. A diferença é apenas que, nesses místicos tempos, o que se discutia era o sexo dos anjos. 

Mas a distração (intencional, as mais das vezes) face às ameaças reais, essa, era idêntica.







21/07/2014

BBC oculta 100.000 nas ruas de Londres por Gaza. E por cá?


É esta a democracia dos grandes media/mídia do sistema capitalista, seja ele menos potente como o português, ou modernaço e hiper financeirizado com dinheiro subterrâneo, como o britânico: UM LIXO.

«Fomos dezenas de milhares a protestar em marcha hoje pelas ruas de Londres, mas essa desgraça que é a BBC ignorou-o completamente. 
Este silenciamento institucional não pode continuar. 
Nós é que os sustentamos, e eles respondem perante nós. 
Partilha para mostrar às pessoas que a marcha aconteceu hoje, e foram 100.000 os que  estiveram lá em solidariedade com Gaza e contra os crimes de guerra israelitas» #Gaza https://twitter.com/ukrespectparty

O CASO ESPÍRITO SANTO E O PAPEL DA BANCA

O jornalista Paulo Pena expõe numa entrevista dados contundentes sobre a promiscuidade entre a banca e o poder político - que é total.

"Os bancos têm a maior responsabilidade na crise ao malbaratarem dinheiro em enormes investimentos não-reprodutivos, como na construção".

Passos Coelho e outros omitem totalmente essa responsabilidade, para manter o mito do "país acima das posses" e o sentimento de culpa na população.

Sem ter a visão um pouco redutora dos autores, considero que eles trazem peças importantes para montar o puzzle final das causas da crise financeira portuguesa.

Clique no link para a entrevista de Paulo Pena, autor do livro BANCOCRACIA:

http://videos.sapo.pt/CJDkopIYCTUTnlYrYwAQ

Já o texto de Pedro Guerreiro revela dados novos e a razão de parte do barulho em torno do Grupo Espírito Santo: há por aí muito ricaço a ficar arruinado. 

Até a imagem da "maravilhosa" Suiça - certamente um dos países venerados pela Economist, pelo governo P&P e por tanta gente míope - fica de rastos: para lá fugiram €30.000 milhões ilegais, de magnatas portugueses, calculando-se que 80% disso venha de FUGA AOS IMPOSTOS. Dava para os juros do resgate da troika em toda a duração do empréstimo.

Outra razão - não mencionada no artigo: grupos económicos afiam a faca para devorar os despojos lucrativos do GES. Anos atrás, o grupo BES enfrentou uma OPA hostil da SONAE, por causa da PT. Essa mesma SONAE que pôs a sua SGPS "ao fresco", na Holanda. Também se fala do interesse do gigante brasileiro Bradesco, o que se entende pela hipótese de vir a controlar a PT e a Oi (é o fabuloso mundo da economia global). Há ainda notícias mostrando interesse da Goldman Sachs.

17/07/2014

DECIFRANDO O QUEBRA-CABEÇAS - parte final

Em Inglês, um artigo revelador, da conhecida publicação britânica Economist

  
The new age of crony capitalism - Political connections have made many people hugely rich in recent years. But crony capitalism may be waning

Tentando uma breve leitura em diagonal, este artigo da Economist critica o "capitalismo de compadres" (do qual é um exemplo bem conhecido o mexicano de origem libanesa Carlos Slim, o "homem mais rico do mundo", dono de telecoms no México e por toda a América latina, além de inúmeros outros negócios). 

A revista considera que este capitalismo de compadrio é praticado numa série de países emergentes -  Ucrânia, Rússia, China, México, Brasil, Índia, Turquia - onde no passado muitos magnatas se produziram à custa de negócios fraudulentos protegidos por políticos corruptos, hoje postos em causa pelos novos ventos que sopram.

"BOM" E "MAU" CAPITALISMO

Então, para a Economist, o "bom capitalismo" seria representado sobretudo pelos norte-americanos e ingleses, e por  esta União Europeia onde "gente virtuosa" no poder estaria decidida a acabar com os privilégios dos antigos "magnatas do compadrio".
 

Será que a Economist pensa em Obama ao atribuir tal intenção? É que há um problemazinho, o próprio presidente dos EUA reconhece que não conseguiu reformar quase nada... veja-se a sua muito tímida tentativa no sistema de saúde, visando mudanças mínimas no  fraudulento e predador capitalismo norte-americano - falhou rotundamente.

Quanto às boas intenções da UE de Merkel, os povos da periferia europeia ocidental conhecem-nas bem, e a destruição da classe média e do Estado social em Portugal e na Grécia são exemplos mais que esclarecedores.  

Diz a publicação que este capitalismo de compadrio baseado em favores do Estado teve uma forte expressão
nos EUA do séc. XIX. Deve ser uma imprecisão da revista, o século dezanove é considerado pelos compêndios um expoente da concorrência perfeita. 

Em conclusão do artigo, o autor apura o seu melhor e mais imaginativo estilo literário, concluindo que:

"O boom que criou uma nova classe de magnatas também criou a sua nemesis.

Há um novo culto  da classe média urbana e dos contribuintes que exige a mudança. 
E isso é algo que tanto os magnatas como os líderes eleitos não podem mais ignorar, a não ser que queiram correr sérios riscos".
 

Em suma: o bonito filme da Economist é o duma nova revolução capitalista em curso nos países emergentes, mas sobretudo nos países ricos, que mete na ordem todos os  velhos monopólios abusivos . 

E o 'happy ending' deste muito imaginativo filme neoliberal seria um hiper-capitalismo de saudável concorrência entre empresas. E, claro, pleno de bondade para com as classes médias...

MÁSCARA SORRIDENTE DA SINISTRA NOVA ORDEM CAPITALISTA

É mais um dos "admiráveis mundos novos" à Aldous Huxley, cuja propaganda ciclicamente o capitalismo engendra, depois de (quase) cair no abismo em cada crise mundial e histórica.

A ver vamos se desta vez consegue sair por cima, como nas anteriores. Por mim, deixo o aviso de que tenho as mais sérias dúvidas. (1)ver justificação em rodapé

A talhe de foice, por falar em Economist,  agora percebo porque Passos Coelho organizou essa encenação da Cimeira/Summit de Fevereiro 2014 em Cascais (onde ele foi aliás o único 1º ministro - uma Summit a solo (!) - peculiaridades da nossa Parvónia...), e percebo porque teve o aval da revista inglesa - nada como juntar clientes da mesma "causa" para classificar como positivos os 3 terríveis anos de saque desenfreado executado pelo grupo P&P sob a batuta da troika.

Passos Coelho, apesar da inexperiência executiva que lhe é atribuída,  mostra o quanto está "por dentro" da boa propaganda ao estilo "nova ordem".
 

Nova ordem onde os grandes tubarões globais arrasam os magnatas à antiga, enquanto  proclamam um imaginário capitalismo cor-de-rosa caído do céu.
 

Você acha que tais proclamações são apenas propaganda? Se respondeu sim, acertou!

Propaganda aliás com contornos sinistros na presente conjuntura, onde a fantasia delirante da Economist é brutalmente contrariada pela realidade do esmagador desemprego jovem, da precaridade, dos salários miseráveis, do criminoso assalto aos fundos dos pensionistas que pagaram toda a vida para os financiar, do não cumprimento dos serviços mínimos na saúde, na educação, nos transportes, na justiça, que o Estado - esvaziado por este capitalismo da nova ordem -  deveria prestar às populações.

Mas não é falsa em relação à ordem antiga - cuja destruição é real.  O terrível "detalhe" é que esta nova ordem é, e será de forma cada vez mais óbvia, muito mais implacável com o povo do que a antiga.

CAVALGAR O TSUNAMI DA CRISE

Para lá do "barulho das luzes de néon" dos falsificadores de serviço nos media, a crua realidade arrasta no tsunami da crise tanto os antigos grupos económicos nacionais como as classes médias e os  trabalhadores, com perda de direitos conquistados ao longo de séculos.  

No fundo, pela propaganda, procura-se esconder o RESULTADO ATERRADOR das políticas em curso - um dos mais violentos saques perpretados na História - em que os países mais ricos (EUA, Europa do norte) saqueiam os outros (3º mundo, ascendentes, Europa do sul), e os grandes tubarões da economia global saqueiam as classes médias e, à boleia, aproveitam para  tomar o lugar dos tais "magnatas do compadrio" agora fragilizados.

Portugal é um excelente exemplo disto. 

A  queda fragorosa do grupo Espírito Santo, não só está permitindo aos habituais capachos mediáticos do novo capitalismo de casino darem-se ares progressistas com críticas ao "velho capitalismo" do GES,  como gerou uma onda de alegria serôdia  naquela esquerda avessa ao raciocínio mas sempre pronta a salivar quando quem controla a agenda mediática lhe lança um biscoito sob a forma de notícia.

Passos Coelho e António Costa logicamente também cavalgam esta onda. 

Na mesma onda flutuam ainda uma série de personagens e grupos que, receosos de se afogarem, marcam já o seu lugar na fila, ávidos dum minuto de fama mediática e  babando à vista duma "promissora carreira" a partir de qualquer plataforma "realista" e "governativa" que lhes seja proposta pelo próximo governante colaboracionista da nova ordem.

Aliás, o  tempo se encarregará de tornar óbvio o papel que cabe a cada  protagonista ou figurante, como António Costa, Ana Drago, Podemos, MAS, 3D, Livre, BE, PCP, Marinho Pinto, etc. etc.

Fiquem calmos, em breve conhecerão o próximo capítulo desta lamentável prestigitação partidário-mediática nacional.

Infelizmente, o relógio corre contra NÓS, PESSOAS, cidadãos comuns.


Porque esta forma de fazer política e de gerir a economia não só não beneficia as classes médias e o povo, como os vai  lançando numa vida cada vez mais medíocre, pobre e sem esperança.  

Mas essa, não é justamente a experiência portuguesa em curso, tal como a irlandesa, a espanhola, a italiana, a grega, a cipriota ?

Este artigo da Economist, se alguma vantagem tem, é a de esclarecer o que os tubarões da nova ordem capitalista dos clubes Bilderberg e cia.
andam a tramar, aqui e no mundo todo. 

O puzzle que permite a sobrevivência de figuras tão improváveis e desclassificadas como Coelho, Cavaco ou Portas, ou esse outro que está por detrás da complexa trama das troikas da UE-FMI, assim como o sentido real dos rearranjos à esquerda e ao centro, começa a decifrar-se. 

O enigma caminha rapidamente para o epílogo.

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(1) Sérias dúvidas de que  as potências capitalistas ricas desta vez possam "dar a volta por cima" como nas anteriores grandes crises históricas.
Essa seria matéria para um outro artigo.

Mas, resumidamente, acredito que estamos perante um novo paradigma em que os emergentes ganham o espaço que lhes é próprio a nível mundial.
Só os cinco BRICS - que recentemente oficializaram o seu próprio e novo FMI -  representam já 65% do crescimento global, e em 2015 pesarão um quarto da economia mundial. 

A única forma de barrar o tsunami económico e social que eles representam é uma nova guerra mundial.
Apenas truques financeiros e medidas predadoras - que são, no fundo, a sórdida realidade por trás da máscara moralista das Economist deste mundo - por mais ardilosos e subterrâneos que sejam, dificilmente impedirão a gigantesca massa de emergentes + 3º Mundo de recuperar a fatia do bolo da riqueza mundial que lhes pertence.