11/08/2015

A "democracia" dos bancos suiços

"Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades" - EUA e RU, bases do sistema financeiro parasitário global, receando a perda de controlo do sistema, dão mostras de alguma ansiedade face ao crescente protagonismo doutros pólos financeiros mundiais. 

Daí que assistamos à representação destes 'entreactos', de suposta luta contra a corrupção, produzidos precisamente pelos próprios centros que são os 'pais' da corrupção - que a fazem mascarada sob formas 'legais', ou seja, dentro das regras que eles-mesmos instituiram à escala planetária e lhes permitem uma extorsão ad infinitum - beliscada por outros usurários da alta finança, sendo que a Suiça é um dos mais antigos e experientes. 


Quando o sistema entra em crise e passa ao formato financeirizado, há que contar cada milhão, melhor, cada bilião, a esta escala. No fim do dia é o que está em causa - a redução ou aumento dos lucros das várias 'aves' da rapina financeira global.

A presente análise tem por referência o escândalo que rebentou há cerca de um ano atrás, de fuga aos impostos envolvendo milhares de magnatas de todo o mundo com base em bancos suíços, que depositavam nas suas contas os capitais evadidos ilegalmente.

Embora a investigação parta dos EUA, este país é apenas um dos investigados, já que os inquéritos se estendem à França, ao Reino Unido, a Portugal, e a muitos outros países.

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Tradução de partes dum artigo do New York Times (clicar aí para a leitura do original). De notar que o NYT é um jornal dito liberal (significa de esquerda, nos EUA), portanto  faz parte da linha ligada a Obama ou Clinton, aquela que percebeu a nova correlação de forças mundial e ensaia métodos diferentes de dominação, que passam por evitar a intervenção militar direta como no passado (agora usam agentes locais, bombardeamentos a alta altitude ou drones, mas a devastação é igual ou pior), não rejeitando a negociação, que apenas troca a guerra militar pela comercial, informativa, cultural e informática, ou por métodos como estes supostos combates à corrupção que visam apenas eliminar os concorrentes.

É a esta luz que o artigo seguinte deve ser lido. 




«Na semana passada, Pierre-Condamin Gerbier, ex-agente/empregado bancário, foi submetido a um procurador suíço sob acusações de violação do segredo profissional por fuga de informações para as autoridades francesas. Tais informações forçaram a renúncia no ano passado dum ministro das Finanças francês, que tinha contas secretas na Suíça numa fase em que o seu próprio governo lutava contra a evasão fiscal. O resultado é que estes empregados bancários - apanhados no meio duma luta entre instituições judiciais - estão 'tramados' qualquer que seja o lado que decidam ajudar.

É por isso que, estando a ser pressionados para revelar os seus segredos ou os dos clientes, pelas autoridades americanas e outras que investigam evasões fiscais e demais crimes, eles optam por manter o código do silêncio. 

Para estes agentes bancários cujas funções podem provocar processos legais no estrangeiro, o silêncio significa evitar a extradição e poderem ficar na Suíça a viver num limbo legal e pessoal.

Se você der com a língua nos dentes está social e financeiramente morto" - disse Rudolf M. Elmer, que dirigia a operação nas Caraíbas do banco suíço Julius Baer até 2002, e está sob investigação [das autoridades suiças] desde há nove anos, por divulgar informações secretas de clientes a partir dum posto avançado nas Ilhas Cayman às autoridades fiscais da Suíça e do estrangeiro. "Você enfrenta a ameaça de ir parar à prisão. A sua carreira bancária está arruinada. Você nunca mais vai conseguir emprego" [na Suiça].


Descrevendo toda uma vida de técnicas dignas de James Bond (que ironizava num filme de 1999: "Se você não confia num banqueiro suíço, que mundo é este?"), os agentes bancários entrevistados disseram que uma das práticas sob investigação criminal intensiva - o recrutamento clandestino de clientes nos Estados Unidos - não só era conhecido pelos seus chefes, como faz parte do modelo de negócio.

Um agente bancário veterano, que não quis ser identificado por medo de ser acusado na Suíça por violação de sigilo, disse que cada empregado que trabalhou com clientes americanos seguia estritas normas de segurança.

Ele disse que os agentes dos bancos levavam computadores portáteis especiais, formatados para poderem apagar a informação instantaneamente tocando numas teclas, e impressoras portáteis para evitar deixar qualquer vestígio. Eles evitavam ficar nos mesmos hotéis de luxo duas vezes, mudando-se imediatamente se alguém os reconhecia ou chamava pelo nome. Cortavam o nome dos recibos bancários. Os clientes telefonavam de telefones públicos, usando nomes de código.

Ele disse que andava com listas de papel separadas, uma com números de código e outras com os nomes. Esses nomes nunca apareciam em registos bancários, porque estavam protegidos por um labirinto de fundos offshore e de fundações, disse. O interesse destes agentes bancários suíços para as autoridades americanas, segundo ele, é que os agentes sabem as identidades dos clientes, uma vez que se encontravam com eles em eventos de classe alta como o Art Basel em Miami Beach ou torneios de golfe.

"Tudo isto foi feito durante muitos anos", diz o agente bancário. "Toda a gente sabia. Lembro-me de uma festa há alguns anos atrás com outros agentes bancários em que eu disse: 'vocês sabem que nós estamos sempre com um pé na prisão'. Todos riram. Talvez por isso éramos tão bem pagos",


Embora estas histórias pareçam situar-se numa fase "quente" do sistema bancário suíço, a cultura continua a mesma, dizem os agentes bancários, os reguladores e outros especialistas.

"Em rigor nada mudou fundamentalmente", disse Jean Ziegler, socióloga e escritora suíça. "O grande problema dos bancos é que violar o sigilo é considerado traição".

Os bancos suíços gerem mais de US $ 6 triliões em ativos []Nota: 9 vezes o PIB da Suiça, de US $ 684,5 biliões, em 2013], mais de metade provenientes do estrangeiro, números que se têm mantido relativamente estáveis, mesmo durante a crise económica e as pressões de governos no exterior para uma maior transparência dos depositantes, de acordo com Daniela Fluckiger, porta-voz para a área comercial da Associação Suíça de Bancários.

Até à data, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou mais de 35 agentes bancários suíços e 25 consultores financeiros por má conduta e evasão fiscal. Seis foram condenados ou declararam-se culpados.

Raoul Weil, ex-chefe do negócio de gestão de riqueza global da UBS, aguarda julgamento em prisão domiciliar no centro de Nova Jersey com uma pulseira de segurança. Os outros vivem basicamente exilados no seu próprio país.

Alguns agentes bancários sob investigação dizem que seus próprios bancos lhes recusaram hipotecas e fecharam as suas contas por receio de perderem reputação. Um deles sofreu uma invasão domiciliar de madrugada [na Suiça, obviamente] e levaram-lhe o computador e o telefone. 

Agora estes empregados dos bancos interrogam-se se os 100 ou mais bancos suíços vão entregar os mais de 1.000 nomes e respetiva informação aos Estados Unidos, de acordo com a Associação Suiça de Bancários, área comercial. O Departamento de Justiça disse que estes nomes são necessários para investigar os impostos sonegados pelos bancos, agentes e consultores implicados.

"Vamos fazer o máximo para que os empregados não paguem pelas estratégias dos seus chefes", disse Denise Chervet, um porta-voz da associação. "É inacreditável que, agora, alguns dos altos executivos afirmem que não sabiam".

Para muitos destes empregados bancários, o caso do sr. Elmer é instrutivo. Agora desempregado, ele foi preso durante mais de 200 dias e, algumas vezes, mantido em isolamento durante as investigações [suiças] por violações de sigilo - mesmo tendo entregue essas violações às autoridades fiscais suíças.

O sr. Elmer tem um contencioso com o seu ex-banco por causa deste ter posto detectives particulares a seguirem-lhe a família em 2011, tentando descobrir o património da sua filha, o que prova com documentos.

Um porta-voz do banco Julius Baer - um dos que está sob investigação nos Estados Unidos por evasão fiscal - recusou-se a discutir o caso do sr. Elmer.

Nos últimos anos, o sr. Elmer observou como os ex-colegas enfrentam escolhas difíceis semelhantes sobre a quebra do código de silêncio absoluto. Nenhum deles, segundo diz, 'rachou'. "Eles [os bancos] têm poder para destruir as suas vidas", disse Elmer».


22/07/2015

O CONCEITO DE ESTRATÉGIA DO 'PODEMOS'

Um debate entre lideranças do PODEMOS de Madrid e outros destacados ativistas locais. Pablo Iglesias, lider do PODEMOS, é o autor do programa televisivo, emitido pelo canal iraniano em língua castelhana HispanTV.

O vídeo está disponível no You Tube.

Bom nível cultural, objetividade, fluidez, frontalidade (uns furos acima dos nossos lideres domésticos) e crença nos movimentos sociais em que participam. E ainda... um esforço aparente em não repetir os erros gregos.

Essa é a 'boa notícia' quanto ao PODEMOS.

A 'má notícia' é que, apesar de todo o discurso sobre  "estratégia em vez de táctica" não existe uma real alternativa estratégica ao sistema económico-social vigente.
O máximo que conseguiram propor neste debate foi algo como (em  resumo - não é uma transcrição):

A conquista dos principais  municípios pelos movimentos de cidadania não tem futuro se não tomarmos também as regiões  (no caso, área metropolitana de Madrid), e depois o Estado, de modo a obter meios financeiros para sustentar os municípios, caso contrário a  direita usará o aparelho de Estado para cortar a torneira dos fundos e, como domina os media, vai usá-los ao mesmo tempo para uma campanha culpabilizadora dos executivos municipais. 
Hoje, Madrid é uma metrópole que, após perder a cintura industrial, se transformou num centro financeiro global que atrai capitais especulativos de todo o mundo, o que permite manter cerca de 15% da população com bons empregos e alto nível de vida, enquanto remete o resto da população para uma crescente proletarização (um pouco ao estilo norte-americano).
A revolta a que se assiste em Espanha não provém dos excluídos, mas das classes médias que se sentiram defraudadas por não terem recebido os benefícios prometidos nos anos 80 e 90 mas pelo contrário se verem a perder cada vez mais direitos e poder de compra.
"Temos de manter a mobilização" e para tanto usar o poder municipal como nova plataforma mobilizadora. Mas isso só por si não será suficiente. Há que pensar no futuro próximo e, nas eleições autonómicas a realizar este ano, tentar tomar a região metropolitana e construir um sistema alternativo ao atual.  Um sistema que em vez de sacar aos pobres para dar aos ricos pratique uma redistribuição mais justa dos rendimentos.
Madrid tem que continuar a ser uma cidade global, mas há que convencer os capitais a virem para Madrid  já não pelos baixos custos salariais mas por perceberem que lucrarão mais com uma economia justa e equitativa e, portanto, com mais poder de compra.

- O texto anterior resume o debate, que pode ser visto na íntegra, em espanhol,  no vídeo.
https://youtu.be/4vBxma5Qp5Y




Portanto,  o PODEMOS acredita piamente que o sistema não é assim tão mau, e que é possível uma alternativa que harmonize trabalhadores e capitalistas, colaborando e pondo acima de tudo o bem-estar da sociedade.

Mas só quem acredita na 'bondade" dos especuladores e terroristas financeiros globais pode alimentar a ideia de que vão investir na cidade e no país, existindo na Região e no País as mesmas baixas taxas de juro e um governo de radicais de esquerda.

A não ser que o PODEMOS pense em subsidiar os capitais especulativos pagando-lhes juros altos. Mas, além do patético desta solução para um partido de esquerda, quem pagaria a fatura?

Em suma, o que as lideranças "cidadãs" de Madrid e o líder Pablo Iglesias se propõem (conclusão inequívoca do debate) é aceitar a continuação desta economia baseada na especulação financeira, embora adoçada por medidas social-democratas de redistribuição de rendimentos  -  rendimentos que, no entanto, ninguém explica donde virão já que, integrando-se Espanha (ou qualquer outro país) nesta globalização selvagem subordinada aos especuladores financeiros, e continuando o dumping  económico, social e ambiental que caracteriza o sistema na atual fase - traduzido na invasão de bens vindos dos países da periferia, produzidos através de trabalho semi-escravo e sem direitos humanos ou regras ambientais, bens que invadem e destroem qualquer sistema produtivo real nos países do centro - a prosseguir este modelo, como serão gerados meios financeiros? Pura ilusão!


Os "donos" globais do sistema engordam as suas gigantescas contas bancárias através do domínio do sistema financeiro mundial, corrompendo lideranças e manipulando mercados, grandes empresas e países, ao ponto - como frisava um comentador a propósito do 'aGreekment' - de fazerem na prática uma OPA (oferta pública de aquisição) sobre o próprio país helénico. Que não é mais que a ampliação do que já vinham fazendo desde há muito com as empresas e os grupos económicos: provocar a queda do valor dos seus ativos no mercado para comprá-los  por tuta e meia, e revendê-los mais tarde com enorme lucro.

Exatamente o que está sucedendo em Portugal, com o detalhe de que aqui, ao contrário da Grécia, é feito sem barulho, no estilo resignado que caracteriza lamentavelmente o país nesta fase histórica.


13/07/2015

SOBRE O CHAMADO 'AGREEKMENT'


Há momentos Catarina Martins, do BE, dizia na RTP que o que houve em Bruxelas não foi um acordo, foi uma imposição e até um 'golpe de estado'.
É verdade, tirando a parte folclórica.

Como não vi declarações do PCP, fui ao Avante! tentar ver algo sobre este acordo. Não havia nada atual, mas é natural que, quando se manifestarem, não andem longe da posição do BE.

Ou seja, entusiasmaram-se muito com o referendo grego e seus resultados. Na verdade, eu também, embora não deixasse de ir  alertando para as inconsistências...


O que eles não falam é sobre o Syriza e a sua reviravolta.
As críticas à UE são obviamente justas, mas não são a única questão. Há que ver os dois lados, porque quem esmaga só o faz por encontrar quem deixe.

Os partidos desta esquerda portuguesa sabem que - mais retórica para cá ou para lá - a sua linha não anda longe da do grego Syriza ou do espanhol Podemos..

É por isso que evitam falar no assunto, e tentam fazer muito barulho sobre outras coisas para retirar foco.

Dito isto,  não caiamos também na posição da ave agoirenta tipo "viram, tinha avisado".
Posição que não foi nem é a minha, pois, mesmo alertando para as inconsistências,  sempre apoiei as posições do Syriza e da Grécia contra a euroburocracia mafiosa, que considerei uma oportunidade histórica para a Europa se libertar desta camisa de forças em que a lançaram..

Desde discursos tipo ladaínha, que consideram que tudo é culpa dum grupo de conspiradores, e tentam convencer que a saída da UE seria um passeio, sem custos ...
... até os 'ortodoxos' do marxismo que acham que a teoria social não pode evoluir além de Marx ou Lenine.
São posições mecanicistas, puramente esquemáticas, ou então puristas e ideologicamente rígidas, que se agarram, tal como nas religiões, a conceitos abstractos sem suporte na realidade.

Todos eles, pesem as diferenças ideológicas que funcionam pouco mais que como décor, têm em comum o facto de serem um factor de paralisia e de desorganizar qualquer tipo de vanguarda, uma vez que se ficam pela mera retórica.

E quando descem à realidade caem no economicismo mais primário (tipo "reivindicar" migalhas ou mesmo práticas caritativas), acabando frequentemente no puro colabolacionismo  com as forças mais perversas do sistema.  

Como tais correntes se situam fora da realidade, é mais difícil (mas não impossível) desmontá-las criticamente. E tal como nas religiões, têm sempre razão,  já que cada um tem as fés e "fezadas" que quer.

O metafísico por definição está para além da Física, logo, qualquer discussão é retórica e torna-se estéril.

Na melhor das hipóteses caem em seitas fechadas. Que por vezes até tomam posições "certas", como a da saída do euro ou dum radical "anti-capitalismo". Ou então pseudo-humanistas, tipo "ajuda aos pobrezinhos".

São posições retóricas que vegetam há décadas (ou séculos, como as religiões), nunca se ligando a qualquer luta real. nem a qualquer processo social verdadeiramente transformador.

Aliás, uma das suas características é a falta de coragem. Como não vão além da retórica, são um ilusionismo e praticamente não correm riscos.

Perante eles, os donos do sistema sorriem. Sabem perfeitamente que o seu papel é igual ao dos antigos bobos da corte. Falam, esbracejam, mas não passam daí.

Porém, não deixam de ter uma função importante: a de desviar militantes dum trabalho sério, encaminhando-os para atividades estéreis que em nada bolem com o sistema.



01/07/2015

SOBRE O FENÓMENO DOS 'EMPREGOS DE MERDA' - uma análise crítica

Um texto interessante do antropólogo inglês David Graeber - considerado um dos 'pais' do movimento Occupy Wall Street.

Ver AQUI a análise de Graeber.



COMENTÁRIO CRÍTICO DO TEXTO

O texto tem qualidades, ao alertar para a tremenda degradação do trabalho, mas acaba ele-mesmo por ser também um "texto de merda", para usar a expressão feliz do seu próprio título.

Não admira que grupos como o Colectivo Libertário (Évora) ou movimentos como o "Anonymous" ou o "Occupy Wall Street" ou equivalentes portugueses Plataformas 15 Outubro ou Que se Lixe a Troika acabassem por não dar em nada, após um ímpeto inicial.

Pesem as boas intenções dos iniciadores, são - tal como o Podemos ou o Syriza . movimentos baseados em ideias inconsistentes, como algumas das deste texto. 

Um pensamento inconsistente conduz a uma ação inconsequente.

Por inconsistente, vejamos.

Citação do texto: 

"(...) a resposta não é económica, mas moral e política. A classe dirigente descobriu que uma população feliz e produtiva com abundante tempo livre nas suas mãos representa um perigo mortal
(...) quem não esteja disposto a submeter-se a uma disciplina laboral intensa durante a maior parte da sua vida não merece nada, é algo que lhes é muito conveniente"


Portanto, David Graeber acha que os "trabalhos de merda" são consequência, não da evolução imparável da lógica interna e "normal" do capitalismo globalizado, mas duma decisão consciente e "malvada" das classes dirigentes.

Discordo. Mesmo não pensando que tudo no sistema é espontâneo. 

As conspirações existem. Ou seja, o planeamento maquiavélico de crises, golpes, pseudo-revoluções, existe. A política de austeridade na Europa é intencional, e é um exemplo disso.

Mas há outros fenómenos tão complexas que não podem ser fruto de nenhuma "conspiração global".

A degradação do emprego (qualitativa e quantitativa) nos países do centro do sistema é um deles.

Os empregos "úteis" diminuiram e os "inúteis" aumentaram pela simples desindustrialização e deslocalização maciças do centro para a periferia do sistema.

Portanto, as causas são fundamentalmente económicas, ao contrário do que no fundo o autor pensa, malgrado as ambiguidades do costume. 

Toda a gente sabe que a China passou a ser a “fábrica do mundo”, que grande parte do que se compra vem da China. Logo, deixou de ser produzido nos países centrais ao sistema.

E então porque se criam tantos empregos de telemarketing, caixa, solicitador litigioso, vendedor, etc., além dos Serviços diversos?

Duma forma necessariamente um pouco simplista e esquemática, para poupar palavras:

Os setores que permanecem nas economias ditas ricas, aquelas que são (ainda) o centro do sistema, são os setores comerciais, financeiros, publicidade e serviços em geral.

Ficam os trabalhos que são inevitáveis (limpeza, transportes, saúde, educação, etc.), os de comercialização e os serviços diversos,
Mas também os empregos superiores, dos altos quadros, e os intermédios - investigadores,  técnicos e criativos em geral - que o texto ignora.

Em esquema:




A questão é essencialmente de custos. 

Tanto a deslocalização para a periferia dos "empregos de verdade", como a degradação (aumento do horário, diminuição do salário) dos "empregos de merda" no centro do sistema resultam da competição feroz entre os grandes conglomerados económicos pelo abaixamento dos custos.

Um outro factor é a financeirização da Economia.

Esta já é mais complexa. Foi a forma do sistema (aí sim, conspiração dos grandes bancos) sobreviver nos países do centro e de as respectivas economias não desmoronarem  (mas só em parte, já que a crise é um sintoma de desmoronamento).

E como? Mantendo o controle do sistema financeiro a nível mundial, quer através do mecanismo parasitário do dólar e duma rede de offshores opaca, quer pela atração de capitais especulativos e provenientes das economias paralela e subterrânea, em busca de refúgio ou de lavagem.


Estas parecem-me as ideias certas sobre o fenómeno dos "empregos de merda". Lamento ter que desmistificar as ideias simplistas. 

Como dizia Agostinho da Silva: arrumar a cabeça para arrumar a vida - no caso, a vida como ação transformadora e de combate às injustiças, por um mundo melhor.


AS CONTAS QUE "ELES" FAZEM

O atual grupo no poder conseguiu transformar o debate político em Portugal num mero e repugnante exercício contabilístico. O que é ótimo para eles, considerando que 99.9 % das pessoas são analfabetas funcionais, já não digo em matéria contabilística, mas simplesmente financeira.

Vejamos o caso da ALTICE, e uma notícia do "Jornal de Negócios" (J.Neg.), um dos órgãos ao serviço da propaganda mais primária dos grandes interesses do sistema.

P. Drahi, o maior acionista da Altice


A notícia AQUI é supostamente sobre o aumento de capital da ALTICE, com vista a que o sr. Patrick Drahi mantenha a posição dominante no grupo.

1 - Ora P. Drahi - que deve ser primo (Nota: irónico) do Mário Draghi, tendo em conta o sobrenome (quase igual) e o histórico comum de ambos nas ligações à Goldman  Sachs -  inchou que nem aquele famoso sapo que queria ser boi, na fábula. Mas só "inchou" depois de se associar à Goldman e aos fundos Carlyle, permitindo-lhe um salto de gigante do seu escritório de anónimo  consultor em França para - imagine-se! - vencedor do concurso da fibra ótica de Pequim (capital chinesa, com uma população que é "apenas" o dobro da portuguesa total).
     Todos os cães têm sorte - diz o ditado popular. Mas só mesmo os escolhidos, diria eu.

2 - A ALTICE, de que Drahi é o suposto dono (suposto, porque os testas de ferro, tal como as bruxas, se calhar até existem, por isso nada como desconfiar... ) tem um passivo brutal, cuidadosamente nunca revelado nestas notícias

3-  Pesquisando um pouco e comparando com os dados do J.Neg. que afirma "O valor da empresa (...) dona da Meo (...) é de 32,5 mil milhões de euros (...) Com dívida incluída, o valor da Altice chega aos 61,9 mil milhões de euros", tira-se a interessante conclusão de que na ALTICE praticamente o passivo (dívidas) e o ativo (capital próprio, etc.) são iguais.

Ora onde é que eu já vi qualquer  coisa muito idêntica? Deixa-me pensar...Ah!.... Parece que o "passivo" e o "ativo" (grosseiramente falando) dum país chamado Portugal são também iguais, se considerarmos que a dívida externa líquida é semelhante ao PIB anual

(Claro que a realidade é muito diferente, e bem mais favorável do que essa pintura, o "ativo" dum país é muitissimo maior que o seu PIB. Esse ativo incorpora a História, o património, a população, as empresas, o território, etc., portanto é dum valor incalculável, ou  não-calculável através da  vulgar contabilidade)

Conclusão: a ALTICE, em qualquer análise financeira séria, seria considerada próxima da falência.

Já PORTUGAL (incluindo  a PT, a TAP, os CTT, a EDP, etc. - vendidas em saldo como sucata), nos mesmos termos, seria um país perfeitamente gerível e equiparável até às melhores empresas. 

Mas o contrário é que sucede, segundo as famigeradas agências de rating.

Portugal, dizem, está falido. Ou pelo menos estava ao tempo do famoso "preso 44"
A Altice, essa,  vai de vento em popa.

Ora, porque será?

Dou uma dica: Será porque o sr. Drahi tem por trás a Goldman e a Carlyle, enquanto Portugal, pelo menos quando o tal "preso 44" estava à frente do governo, não tinha esse respaldo?

Cada um que responda.
(Frisar que a referência aqui ao "preso 44" tem a ver exclusivamente com análise económica - tenho de comparar dados que, por acaso, coincidem com esse período de governação e o atual, para que se perceba a evolução).

Mas para muita gente - nomeadamente jornalistas, comentadores mercenários e direçõezecas dos partidos e partidinhos  -  a economia (seja a dos países, seja a das empresas) é uma ciência oculta, um verdadeiro quebra-cabeças insolúvel que o povo nunca perceberá.

Ou convém que não perceba, não é...

Azar. De vez em quando aparece um 'maluco' que desmonta e monta de novo o "puzzle" aparentemente  insolúvel.

Aí, fica tudo em pratos limpos e vê-se a grande tramóia que tem sido encenada.

20/05/2015

O CAPITALISMO É UM CORPO ORGÂNICO...

.... INFILTRADO  NO "CORPO" SOCIAL


Provavelmente não encontrará as ideias seguintes em nenhum livro.
Descobri-o através das lutas sociais onde estive envolvido, e da análise do comportamento de pessoas, grupos e instituições. E de como quase todos caem nas armadilhas e engodos lançados pelo sistema.

Já se perdeu a conta aos profetas da queda do capitalismo após cada grande crise.
A verdade é que ele renasceu sempre sob novas formas, mais forte e enganoso do que antes.

Concluo então o seguinte.
O capitalismo não é apenas um esquema sobreposto ao corpo social e estranho a ele.

O capitalismo é orgânico, como o cancro.
Entranha-se no corpo social e, de cada vez que é atacado com um remédio, logo desenvolve células de novo tipo que envolvem e estrangulam ainda mais  esse corpo....

É por isso que o capitalismo é orgânico. Não uma realidade estranha, sobreposta ao "corpo" social.
 

Coisa que a esquerda convencional em geral não entende.

Menos ainda o entendem os conspirativistas de direita (que reduzem os males do mundo à ação dum grupo de malvados, sejam políticos corruptos, seja a "máfia da UE" ou a família Rotschild). Ou,pior ainda, culpam os próprios cidadãos dos saques e desgaste a que eles-mesmos são sujeitos.

É por isso que falham no combate aos males do sistema.



O MARXISMO

Não estão em causa as intenções revolucionárias de Marx, nem a importância do seu extenso contributo para a compreensão da sociedade humana. Nem tãopouco que, na altura em que Marx e Engels criaram a teoria do materialismo dialéctico e dos modos de produção, definindo a História como uma sucessão de tais sistemas ,determinada pela luta de classes entre proprietários e não-proprietários dos meios de produção, o marxismo e os complementos doutrinários de Lenine e outros seguidores, não fossem duma importância crucial no desenrolar de revoluções que marcaram profundamente a História.

O problema é adotar perante tais doutrinas uma atitude contemplativa-religiosa, transformando-as em axiomas intocáveis, algo que é oposto ao método científico, método que obriga a colocar continuamente em causa e a testar toda e qualquer tese, por mais sólida que pareça.

A mecânica newtoniana da força de gravidade e do equilíbrio dos corpos celestes parecia duma solidez inabalável. Já não falando nos ensinamentos aristotélicos ou dos teólogos católicos medievais que precederam Newton.

Mas com Einstein tal visão foi derrubada e substituída pela Física Quântica com base na teoria da Relatividade. E na atualidade esta doutrina é já questionada pela Física dos fractais e outras novas teorias.

Seria absurdo pensar que numa área muito mais complexa como a área do social a ciência fosse diferente e as teorias tivessem congelado, não se movendo um centímetro.

O problema do marxismo é que é uma doutrina extremamente abstracta que desenvolveu um reportório complexo de conceitos nos quais se reproduz, isto é, vai criando conceitos cada vez complexos a partir de conceitos originais já de si bastante abstractos e complexos. Mesmo que as sucessivas apresentações dos seguidores lhes dêem um ar simples.

Um exemplo crucial na doutrina de Marx é a luta de classes como motor da História.
Ainda que alguns marxistas atuais neguem que esse seja um conceito central, ou que seja exatamente isso que Marx disse.

A verdade é que toda a construção marxista assenta nessa ideia, a da contradição entre o modo de produção e as forças produtivas, considerando que estas, a certa altura, já não cabem na camisa de forças do modo produção vigente, e será isso que explica a evolução (revolucionária) dum modo de produção dominante para outro, ao longo da História.

Modo de produção é a forma como está organizada a produção, não apenas no aspecto técnico mas também no aspecto social, tendo em conta o tipo de propriedade e as relações entre pessoas e grupos no âmbito do processo de produção. Tudo depende da propriedade dos meios de produção, que determina a composição e natureza das classes - segundo Marx.


Ou seja, o que determina a classe de alguém é  se possui ou não meios de produção, e por consequência, a forma e nível de apropriação dos frutos da produção.

Assim, toda a mecânica social, segundo Marx, é baseada na questão da apropriação da "riqueza"

A verdade é - superando a linguagem marxista estereotipada - que Marx parte duma realidade efetiva, a territorialidade do ser humano (como aliás de qualquer outra espécie, todo o ser vivo precisa dum território de suporte para viver) mas Marx considera essa territorialidade como algo puramente material logo, no fundo, tudo não passa duma luta económica, duma luta pela posse de território material.

A verdade porém é que às espécies, incluindo o Homem, não se coloca apenas ou quiçá essencialmente (pelo menos nos tempos atuais) a necessidade dum território material para viverem e se reproduzirem. Há outros mecanismos, entre eles o domínio sobre os seus semelhantes ou sobre outras espécies.


Assim como o domínio do saber, da técnica, e doutras formas de energia em que provavelmente Marx nem pensou.
Formas que remetem para laços de vários tipos que estão para lá duma territorialidade puramente física.

Talvez aqui estejam pistas para um nova teoria social mais complexa, flexível e abrangente, por analogia com a evolução para a visão quântica e fractal noutras áreas científicas. Em detrimento de visões fixistas que consideram certas teorias como intocáveis e sagradas.

Daí a dificuldade de combater o sistema capitalista e perceber finalmente que ele não é um mal imposto de forma externa à humanidade, ele entranhou-se no sistema social humano contaminando-o, ao ponto de ser difícil perceber onde começa a natureza humana e acaba a cobiça, a ambição desmedida e o egoísmo inculcados pelo capitalismo.

AS DOUTRINAS CONSPIRATIVAS

As doutrinas conspirativas, que reduzem a dinâmica social à ação perniciosa duns quantos sujeitos "malvados" como os Rotschilds, são ainda mais primitivas que o esquema marxista da luta de classes pelos bens materiais. Mas tornam-se atraentes porque fornecem explicações directas para os acontecimentos. Por exemplo, o 11/9 e o atentado às Torres Gémeas teriam sido fruto dum golpe da CIA combinada com a dinastia saudita. Ou a revolução russa só teria logrado sucesso porque foi financiada pelos Rotschild.


Mesmo que haja alguma verdade nessas interpretações, elas são extremamente redutoras, para não dizer surreais, sobretudo no caso russo.

Segundo estas visões, os primeiros homens da família Rotschild trataram de produzir uma extensa prole, não perdendo oportunidade para procriar com qualquer mulher, incluindo criadas, amantes, etc. Tudo para deixar o máximo de descendentes, de quem esperavam obter a defesa dos interesses da família, mesmo tratando-se de filhos ilegítimos.

Se o derrube de um prédio - simples estrutura material - pode ser resultado duma conspiração, já o desmantelamento dum Estado é fruto duma longa e complexa evolução que envolve todos os agentes sociais e exige forças muito complexas.

Só o longo processo de construção e consolidação do PCUS na sociedade semi-feudal russa deu origem a vários compêndios de História.
Imagine-se a revolução de Outubro de 1917 que mexeu com todas as forças sociais russas, e não só, até com partidos, grupos e interesses do mundo inteiro.

Daí a perigosidade de tais teorias, algumas delas provavelmente lançadas por serviços de contra-informação ou por grupos económicos com vista a anular a informação séria que logra circular na sociedade.

Isto não significa que não se construam raciocínios autónomos sobre as mentiras apresentadas pelos media do sistema, as quais é imperativo desmontar.

Mas cada coisa é uma coisa. Os mapas (as teorias) não são o território, mas são imprescindíveis para que nos orientemos. Ainda que tenhamos que refazer continuamente os mapas, corrigindo as suas imprecisões e lacunas.

09/05/2015

70 ANOS DA VITÓRIA NA GUERRA CONTRA O NAZI-FASCISMO

Estão a comemorar-se os 70 anos da rendição incondicional da Alemanha nazi ao exército vermelho.

No dia 9 de Maio de 1945 o comando das forças alemãs assinava a rendição incondicional.

Não podia fazer outra coisa, 2 dias depois do suicídio de Hitler e quando o exército soviético (conhecido como exército vermelho) tomava de assalto Berlim, abafando o último suspiro desesperado dos nazis.

Desde 22 de Junho de 1941 que as forças do Eixo - com 3,5 milhões de homens e 180 divisões mecanizadas - invadiram pelas 3 frentes norte, centro e sul o território da então URSS, cercando Leninegrado/S. Petersburgo que nunca se rendeu e teve 1,5 milhão de mortos (metade dos seus habitantes) devido à falta de abastecimentos e ao frio, ganhando os nazis numa 1ª fase sucessivas batalhas (em Minsk e Kiev os russos, bielorussos e ucranianos, perdem cerca de 1 milhão e meio de soldados; na ofensiva nazi em direção a Moscovo os russos perdem 650.000 homens; e nas muitas outras batalhas como Sebastopol e Odessa - Crimeia -, Estalinegrado/Volvogrado, Rostov , etc. os soviéticos têm perdas com números semelhantes, entre soldados mortos e capturados).



Mas a resistência dos povos integrados na então URSS foi encarniçada, contrariamente ao que esperavam os lideres nazis.  Infelizmente, então  por causa da Guerra Fria, hoje pela tentativa de isolar a Rússia de Putin que recusa o dictat americano, os média ocidentais mantêm viva a ficção de que a guerra se desenrolou sobretudo no ocidente, e quando muito no Pacífico, contra o Japão.

A verdade histórica é bem outra, como os números brutais na sua frieza comprovam: a URSS perdeu 27 milhões de pessoas naquela que os russos designam por Grande Guerra Pátria. A resistência soviética foi feita cidade por cidade, aldeia por aldeia, rua por rua, casa a casa, em muitas cidades.

Só se compreende uma resistência tão feroz e heróica, perante um exército a que nenhum outro país invadido conseguira resistir, pela quase unânime adesão do povo ao esforço de guerra.

Foram cumpridas religiosamente as ordens mais estranhas e imaginativas, como fazer inundar os diques e lagos que separam Leninegrado de Moscovo, queimar todas as colheitas e todas as casas das aldeias à medida que as forças de Hitler iam avançando, de modo a negar-lhes qualquer abastecimento, pintar e camuflar os edifícios importantes de Moscovo para parecerem herdades rurais aos olhos dos aviadores alemães, enquanto em praças vazias eram desenhados edifícios militares para enganar os pilotos.

Todas as formas foram usadas para reter o máximo tempo possível as forças nazis, esperando que chegasse o Inverno rigoroso e os apanhasse na armadilha do frio glacial russo, para o qual os alemães não vinham preparados, acabando retidos a poucas dezenas de quilómetros de Moscovo e  sofrendo uma brutal derrota na batalha de Estalinegrado, onde morreram 800.000 soldados alemães ou seus aliados, mas à custa de 2 milhões de mortos do lado soviético.

É quase impossível descrever por palavras a dimensão da tragédia sem igual que foi a 2ª guerra mundial, particularmente nos países mais devastados como a Rússia.

Não há uma única família das populações então integradas na URSS que não tivesse algum parente morto nos combates, ou em razão da fome, do frio e doença como consequências da guerra.

A impressão mais dolorosa e comovida vê-se ainda hoje nos rostos fechados dos poucos veteranos que restam ou das mulheres idosas que não conseguem conter as lágrimas perante as terríveis lembranças das brutalidades dos nazis sobre os seus próprios filhos, mães, irmãos, incluindo fuzilamentos e lançamento dos seus corpos numa vala comum como se de animais se tratasse.

Retenho as palavras dum membro da resistência popular russa, que refletem um ódio irracional mas compreensível perante a barbárie da invasão nazi: "Quando apanhavamos alguns fascistas, matavamo-los a todos a tiro, mesmo os que levantavam os braços".

Outros depoimentos: "No hospital de 1ª linha de Moscovo.... os feridos entravam em comboios contínuos de camiões por um portão e, depois de lavados e operados nos casos mais urgentes, saiam por outra em contínuo para hospitais da retaguarda 24 horas por dia ... Os homens eram tão corajosos, que os feridos nas pernas se levantavam e andavam, enquanto os feridos nas mãos mostravam que podiam mexer os dedos, todos  reclamando voltar para a frente de combate".

VIDEO DO CANAL 'RUSSIA TODAY' (em língua Castelhana):
A BATALHA POR MOSCOVO - DEFENDER ATÉ À MORTE





04/05/2015

A TÍPICA CRÍTICA INGÉNUA (?) AO SISTEMA

Com o desenvolvimento da internet passou a ser corrente uma ideologia supostamente contestatária, dita até revolucionária, que na verdade não passa dum conjunto de banalidades inconsequentes acerca dos pretensos defeitos do "homem" e da "civilização", sem nunca nomear o verdadeiro responsável - o sistema.




O seguinte conjunto de slides dum artista polaco é um excelente exemplo desse tipo de ideologia pretensamente progressista mas na verdade muito útil ao sistema, ao atribuir ao "homem" em abstrato, à "educação", aos políticos em geral, aos media, aos atos anti-ambientais do simples cidadão, etc., duma forma parcelar e sem conexão, culpas que cabem exclusivamente ao sistema capitalista.

Um exemplo claro é quando o autor diz "A internet brindou-nos com a melhor arma para combater as injustiças: que as nossas palavras não possam ser abafadas por ninguém". E esta frase é a legenda da imagem acima, em que o Facebook é a ilustração para a dita cuja arma.

Logo o Facebook, um instrumento criado pelo pior setor do capitalismo para controlar e vigiar as pessoas e os movimentos sociais!

Na verdade a internet não serve para nada, melhor, serve  para alimentar a grande ilusão duma falsa liberdade, a partir do momento em que a generalidade das pessoas não dispõe da cultura política e social mínima para se defender do sistema, um sistema que as bombardeia continuamente com ilusões como as exemplificadas pela apresentação em anexo.

Clique aqui:
PAVEL KUCZINSKI - UMA CRÍTICA SOCIAL ILUSÓRIA




02/03/2015

NOVAS TÉCNICAS DE FORMATAÇÃO DA OPINIÃO

Resumo

O grupo no poder tem conseguido escapar a sucessivos casos que normalmente originariam a sua demissão imediata. Procuro analisar as causas da ineficácia das 'oposições'.

As razões residem na própria forma como o sistema está organizado hoje, o modo muito camuflado como as  oligarquias financeiras internacionais organizam o saque, permitindo-lhes enganar as populações, que atribuem a causas internas o que não é mais que fruto dum sistema internacional.

O público cai no engodo da propaganda - ele cresceu sob o ilusionismo consumista e mediático, o brilho falso das novas tecnologias e as permanentes promessas de sucesso fácil. Ele acredita nos media e os partidos ditos da oposição também ajudam à "festa" ao fazerem-se eco das notícias e comentários dos media que tratam como se fossem informações sérias.

A pouco e pouco, atordoadamente, as populações vão percebendo que as ilusões propaladas pelos media não têm nada a ver com a realidade.

Mas a própria estrutura social é cada vez mais complexa. E as pessoas isoladas, stressadas e dispersas por múltiplas tarefas, confrontam-se com organizações gigantescas e altamente centralizadas, que usam a seu favor a manipulação dos media, beneficiando da influência cada vez maior destes.

Acrescem fatores específicos portugueses: a pequena  escala do país e consequente baixa velocidade de circulação da informação,  além da dependência face ao exterior.

E por fim a inconsequente oposição dos partidos - seja por impreparação, seja por eles mesmas estarem iludidos com o sistema e 
instalados nele.

Urge repensar os métodos de luta.

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António Pinho Vargas (APV), para além do seu reconhecido talento musical, tem-se manifestado enquanto cidadão preocupado com a situação do País em vários momentos.

Recentemente, por exemplo, publicou no Facebook um pequeno texto em que verbera a manipulação por parte dos apoiantes do grupo no poder relativamente à omissão das obrigações contributivas do cidadão Passos Coelho.

Extraio algumas frases desse pequeno texto de APV que aproveitarei como mote para uma análise mais abrangente da problemática da formação da opinião pública.


Imaginemos (...) que o recente caso dos descontos para a Segurança Social, que Passos não pagou na devida altura (...) se teria passado com um dirigente do PS (...) -  o que estes dirigentes do PSD ou do CDS teriam dito sobre tais matérias...

(...) cria-se uma "moral privada" (...) que se desfigura conforme as várias conveniências para uso corrente. Pensar que a magistratura pensou levar a tribunal Soares por ter dito "ele que se cuide" - acrescento, frase tão perigosa como as anteriores declarações de inúmeros sindicalistas "se não vai a bem vai a mal", ou seja, expressões retóricas e inúteis de um desespero da vontade, mostra o grotesco desta coisa toda. A magistratura faz parte dele (...)
- António Pinho Vargas

Passos: acusado de ocultar fuga à Segurança Social...

... os seus propagandistas desdobram-se em justificações palavrosas
da que é, apesar da gravidade moral, das menos graves praticadas por esta gente

Ao fazer esta declaração, APV acaba por abordar um dos temas que reputo mais importantes na vida social atual, o da forma como se propaga a informação e por consequência, como se faz a avaliação das figuras públicas e nomeadamente dos políticos.

Hoje, os media e seus protagonistas - jornalistas, comentadores, entertainers - são parte integrante do sistema de poder, e fator fundamental do exercício e da luta pelo poder no sistema. 

Não apenas mensageiros duma mensagem qualquer, como ainda pensa aparentemente a 'oposição' que, pela voz dum líder partidário, repetia a velha frase 'não confundimos o mensageiro com o autor da mensagem'. 

A questão é que a mensagem e o mensageiro hoje são parte integrante do pacote do ilusionismo político com que o poder é exercido.

Vemo-lo na propaganda televisiva paga, da UE e suas políticas (que vendem ainda a ideia duma  UE muito humana e solidária). Ou nos acontecimentos no médio-oriente e na Ucrânia, acompanhados de maciças propaganda e desinformação, sem as quais sequer se poderiam realizar aquelas barbaridades e o público já teria percebido que está em preparação por parte dos EUA uma 3ª guerra mundial ou algo, no mínimo, muito perigoso e grave.
OS MEDIA SÃO O QUARTO PODER, 
MAS NÃO-AUTÓNOMO DO PODER PRINCIPAL

Cada vez mais o poder mediático (talvez alguns tenham esquecido, mas nos anos 70 falava-se já do 4º poder) é entregue a profissionais bem treinados, não só em comunicação e imagem como em métodos de manipulação e contra-informação.

Se nos anos 70 já se falava nisso, hoje faz muito mais sentido. com novas nuances, porém.

A verdade é que poucas pessoas – incluindo os especialistas – têm noção da importância real dos media na formação das opiniões.

Alguns alegam que o nível profundo de opinião, ou seja, as convicções no "estado sólido", são muito pouco afectadas pelos media. As pessoas formariam esse nível de opinião profundo pela participação nos seus grupos primários -  família ou círculo natural de amigos - ou em grupos profissionais, culturais, de lazer, etc. de que fazem parte. E acrescentam: menos de 10% de pessoas lêem jornais em Portugal e apesar dos avanços apenas uma minoria tem acesso à internet.

Não me parece verdadeira a conclusão
, apesar dos últimos factos apontados serem reais.

PORQUÊ E COMO OS MEDIA FORMATAM AS OPINIÕES? 

Hoje há outros factores a ter em conta
:

- O tempo cada vez maior que crianças e adultos gastam a ver televisão, ao ponto da maioria ligar automaticamente a TV ao chegar a casa, dormir com a televisão aberta, comer e fazer outras tarefas assistindo televisão
- O tempo reservado ao convívio familiar, aos jogos e brincadeiras infantis espontâneos e à relação autónoma familiar  é cada vez menor
- O número de famílias com disfuncionalidades de comunicação aumentou muito (a presença da TV não é a causa principal, mas é um fator que agrava)
- A falta de tempo dos pais para os filhos, o crescente individualismo, o isolamento dos séniores na sua casa, tudo contribui para a desagregação familiar, exclusivamente determinada pelas exigências profissionais e pelo estilo de vida social (ritmos, transportes, duplo emprego, trabalho extra-horário, padronização de valores e comportamentos) impostos pelo sistema na sua forma atual, não fruto de qualquer livre escolha individual, como nos é vendido.

Cada vez menos aquilo que se faz nos media – incluindo internet e redes sociais virtuais – é deixado ao acaso. A manipulação intencional por organizações profissionais – empresariais ou políticas – é cada vez maior, o que se vê até numa simples busca Google, personalizada conforme o perfil de cada utilizador automaticamente armazenado na base de dados do "motor".

OS MEDIA NÃO SÃO APENAS EMISSÁRIOS, 
ELES FAZEM PARTE DO PODER

Assim, uma primeira conclusão: encarar os media como um factor secundário é errado. Eles desempenham um  papel enorme na formação duma opinião pública e pessoal, em que o tempo passado frente às TVs, aos computadores, smartphones, ipods, consolas e outros media é enorme, e a quantidade e refinamento da informação por essa via é cada vez maior.

Hoje mais que nunca fazem-se e desfazem-se imagens de líderes, eventos e correntes de opinião, simplesmente criando-as, montando-as e pondo-as a circular nos media.

Mas a questão mediática obviamente não é tudo.

UM PROBLEMA SISTÉMICO E DE MENTALIDADES

Ilustrar o fenómeno da manipulação atribuindo-o apenas ao comportamento de certos personagens ou grupos, pode conduzir a uma visão redutora.

Tenho analisado bastante o problema da informação e creio que ele é sistémico e, por outro lado, entra no terreno da mentalidade

Tiro estas conclusões baseado em muita observação não só dos conteúdos informativos dos media principais, mas também de blogues, fóruns e grupos de debate net e espaços para comentários dos media on-line e ao vivo.

Em Portugal, conseguiu-se instalar um sistema e uma mentalidade que passo a caracterizar.

CARACTERISTICAS DA MANIPULAÇÃO POLÍTICA EM PORTUGAL

Sempre que há um governo ou político, mesmo que equivocamente, apelidado de esquerda e ele tem uma pequena falha - real ou inventada - caem-lhe todos em cima e, pior, responsabilizam-no direta e pessoalmente

Já quando se trata dum governo de direita, como se vê de forma mais óbvia no atual, assistimos a campanhas - orquestradas ou não - de grosseiro branqueamento das suas responsabilidades em qualquer facto negativo.

Vejamos exemplos recentes:

- As mortes e negligências hospitalares que ocorreram de forma generalizada no pico do frio foram explicadas como efeito da má gestão de diretores hospitalares e médicos, de modo a esbater a responsabilidade dos cortes e do desinvestimento no SNS por este governo - apenas a gravidade do caso e algumas vozes indignadas impediram um total branqueamento;

- Quanto ao desemprego, à vaga de falências, à corrupção, à nova vaga de emigração, ao aumento dos números dos sem-abrigo, da pobreza, dos idosos isolados, etc. - a culpa é atribuída a factores “diversos” (mas nunca ao governo) como:

a)    O 25 de Abril, que teria gerado todo um “novo” sistema de corrupção

b) O “socialismo” (?!) que terá passado a dominar o País – isto dito com desfaçatez por alguns propagandistas nas “redes”
Nota: Chocante falarem de 'socialismo' num país onde privatizaram uns atrás dos outros todos os sectores e grandes empresas a partir dos anos 80, um país com leis laborais das mais desfavoráveis aos trabalhadores dentro da OCDE e não só

c) Os supostos defeitos do povo português, apontado sem pudor como pobre, ignorante e sem espírito empreendedor, em contraste com os “maravilhosos” povos do norte da Europa
Nota: Porquê a democracia e toda a civilização moderna nasceu no sul da Europa, com o contributo de Portugal, e no final do séc. XIX a Suécia e os outros países nórdicos eram pobres , registando uma enorme emigração? E porquê as mais sangrentas e criminosas guerras foram provocadas pela Alemanha e pelo Japão, também desse norte 'tão civilizado'?

d) Os políticos em geral, apontados como corruptos e sem qualidade, o que seria culpa do peso excessivo do Estado

e) Estado e suas instituições - feitos bombos da festa porque  "delapidam o dinheiro dos contribuintes” e os “escravizam” 
Nota: Forma óbvia de branquear os cartéis multinacionais, apresentados como “geradores de riqueza e emprego”, enquanto tudo que seja Estado apenas serve, dizem, "para retirar meios à economia produtiva".  Afinal "argumentos" para justificar privatizações selvagens e cortes em tudo quanto é Segurança Social, subsídios de desemprego, Saúde, Educação e restantes funções sociais.


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