23/11/2014

UMA CONJUNTURA CRIPTO-FASCISTA

A REVANCHE DUMA DIREITA DE FACA NOS DENTES

Não conheço os detalhes da acusação a Sócrates. E poucos a conhecem, exceto os envolvidos no processo.

O que não impede a direita apoiante deste desGoverno de se aproveitar para enxamear os media de propaganda atacando o mais possível o que resta de democracia, usando a esquerda como  alvo principal.

Ontem, a SIC internacional reservou-lhe mais de metade do noticiário, dando a perspectiva judicialista que interessa ao desGoverno  em total coincidência com o único comentador da noite, o "insuspeito" Marques Mendes (!).

Fique claro: não ponho um só dedo no fogo pela moralidade de José Sócrates. Politicamente sempre o combati, ainda ele era ministro do Ambiente - e muito mais depois - e sempre achei que o PS fazia um mau negócio, mesmo na sua perspectiva interesseira, ao continuar a apostar nele após a sua demissão.

Com ou sem corrupção, Sócrates era uma carta fora do baralho. As batalhas perdem-se e ganham-se, e a do desGoverno Sócrates, mal ou bem, foi perdida com a sua demissão em 2011. Ponto.



Mas a verdade é que a direita tem mostrado por esse mundo fora que sabe usar a judicialização da luta política. É bom reter essa característica - a facilidade com que a direita da nova ordem do terrorismo financeiro internacional usa a Justiça para dar uma capa moral ao seu cada vez mais predador  sistema de pilhagem dos povos.

Pensar que esta é apenas mais uma decisão judicial, constitui um erro  de avaliação política.

E não se trata de pôr em causa a independência do juiz que decretou a prisão - facto sobre o qual não me pronuncio, apesar do carácter aparentemente estranho da prisão imediata, por mera comparação com casos do género ou mais graves cujos culpados andam a passear por aí.


PARADA E RESPOSTA ENTRE PS E PSD

Mas, da mesma forma que os advogados manipulam detalhes legais com vista a forçar sentenças injustas, não se pode excluir que certos setores políticos tenham desenterrado no momento conveniente detalhes que tinham na manga para forçar uma decisão judicial favorável à sua estratégia.

Seja como for, parece óbvio o jogo de parada e resposta:  PS e demais oposição marcaram pontos recentemente com os casos Tecnoforma e Vistos Gold, ferindo o governo em exercício. Os apoiantes deste podem agora ripostar com o caso Sócrates - uma "coincidência" oportuna e bastante útil para a sua pré-campanha eleitoral.

Ainda sob o guarda-chuva pseudo-protetor de Merkel - que volta e meia vai deixando avisos chantageadores - a clique no poder parece não ter pruridos em lançar a bomba atómica sobre o homem visto por muitos como o seu principal opositor.

É um método que estamos habituados a ver no 3º Mundo, mas de forma mais crua - o opositor levado na ponta da espingarda e mesmo ser morto ou apodrecer na prisão.

Num país europeu e na atual fase o aparato é  diferente, mas a estratégia  política parece a mesma: forçar a liquidação política dos opositores por métodos enviesados.

Curiosamente, além da atual direção do PS, a restante «oposição» - PCP, BE, Livre/Manifesto e demais pequenos partidos - nisso como em tudo, adopta a atitude temerosa e inconsequente de lavar daí as mãos e não se comprometer.

O que, no fundo, tem lógica. Além de evitarem sujar-se, a maioria deles ajudou a derrubar Sócrates em 2011, pondo-se objetivamente do mesmo lado da barricada da direita revanchista, mais ainda agora não iria querer proximidades com uma figura entretanto demonizada por doses maciças de propaganda da clique no poder.

Enfim, podres duma «oposição» que, por muitos princípios morais que proclame, adota sempre o mesmo calculismo eleiçoeiro sem vislumbre revolucionário, navegando na espuma dos media "burgueses" sempre que convém ao seu taticismo.


UMA OPOSIÇÃO QUE CAVALGA A ONDA MEDIÁTICA

Viu-se no processo Casa Pia, como em todos os casos mediáticos 'vendidos'  como meramente "morais" ou "anti-corrupção". Há sempre alguém do PCP, do BE e do Portugal dos partidos Pequeninos para fazer parte do coro 'inocente', como quem não quer a coisa mas aproveita muito bem a onda.

Tanta conivência já soa mal. Desconfio que vão ter que mudar de atitude, ou de tática, porque daqui a pouco "o peixe", de tão usado, já não rende.

O aparente alheamento da «oposição» no presente caso demonstra uma avaliação errada e, por essa via, conivente com o formato anti-democrático que o sistema vai tomando em Portugal, enquanto tal oposição alterna entre um dogmatismo muito desligado da realidade, e um oportunismo mediático grotesco para quem se pretende crítico dum sistema de que esses media são um eixo central e cada vez menos inocente.

A propaganda governamental vem apresentando como vitórias o desemprego galopante e a destruição do tecido económico, que em 3 anos fizeram sair  um quarto de milhão de portugueses para o estrangeiro. Muitos, altamente qualificados. É cada vez mais envelhecimento, e cada vez menos esperança numa das nações mais antigas da Europa.

Um desastre anunciado. País à beira da destruição política e moral, auto-estima golpeada por quem ainda se atreve a inculpar o povo pelas consequências da sua própria política de saque, gisada metodicamente pelos especuladores sintonizados no eixo americano-sionista-alemão. 

Uma oposição consequente não hesitaria um segundo em unir forças e formar uma ampla frente de salvação nacional perante o desastre eminente.

Mas nem com mais este sintoma de que caminhamos rapidamente para um critpto-fascismo na Europa - Portugal como cobaia principal - esta oposição dá mostras de aprender a pôr os seus  mesquinhos interesses imediatos de lado.

Uma lufada de ar fresco, gente independente, mas que perceba de política, sem teias de aranha na cabeça, dispondo dum espírito patriótico e duma mentalidade operária e militante - precisa-se.

Urgentemente.




10/11/2014

O caso BES e o papel das OFFSHORES no sistema capitalista

Saiu recentemente a notícia, lançada como se fosse uma bomba, de que o inquérito ao BES tinha provado que a administração de R. Salgado transferiu para duas offshores britânicas do canal da Mancha nos últimos dias dos seu mandato, contrariando as ordens do Banco de Portugal, largas centenas de milhões de euros.

Pelos vistos, e associando esta notícia ao anúncio que já havia feito Marques Mendes - o homem de plantão na SIC para a  propaganda do PSD -, à clique P&P interessa
agora pôr todo o foco só e apenas na culpabilização do anterior homem-forte do BES, provavelmente para desviar a atenção de assuntos quentes como a sua própria responsabilidade em todo este desastre e bem assim no que está sendo preparado na PT (com o qual o desGoverno quer o mais possível parecer que nada tem a ver).


OFFSHORES SÃO ESTEIO ESSENCIAL NA ATUAL FASE DO CAPITALISMO

A transferência de dinheiro nacional para offshores não é novidade, já há muito os bancos e outros agentes o fazem - como foi denunciado recentemente com os 30.000 milhões de euros de capitais portugueses só na Suiça e a propósito também da falência do BES (Cfr.
"A Riqueza Oculta das Nações" - Gabriel Zucman).
 
Este caso agora só é "escandaloso" porque o grupo caiu em desgraça e... porque interessa a alguém com poder nos media pôr todo o foco ali.


Aspecto muito interessante - setores de esquerda alimentarem estas conversas, seja por ignorância seja  por interesse.


Pessoalmente considero que o foco devia ser posto nas offshores para onde o dinheiro foi parar: duas ilhas britânicas do canal da Mancha, provavelmente a Ilha de Man, ou Jersey ou Guernsey.


Mas também poderia ter ido para Bahamas, Bermudas, Gibraltar, Malta, muitos outros locais nas Caraíbas, na Ásia ou na Europa, ou mesmo diretamente para o RU e os EUA. Países que, segundo a Wikipedia, e à luz da sua legislação e práticas, podem eles-mesmos ser considerados como grandes OFFSHORES.  

Só não o são talvez para que não salte tão à vista a verdadeira natureza do centro capitalista mundial hoje em dia.

Conferir  AQUI.



MÉTODOS DE FAZER DINHEIRO FÁCIL E O PESO DAS OFFSHORES

Por outro lado, neste artigo da Economist, esclarece-se uma importante forma das empresas americanas (ou britânicas, ou de outros países...) ganharem dinheiro - uso de filiais em offshores, incluindo obscuros "fundos" (dos quais estamos constantemente a ouvir falar como investidores em ações nas maiores empresas) que fazem aplicações por esse mundo fora.


«O principal motor do lucro da General Eletric, um enorme conglomerado americano que fabrica de tudo, desde motores a jato até plásticos, é a sua divisão financeira. As suas empresas não-financeiras promovem Fundos de Pensões e de Títulos junto dos seus empregados em todo o mundo, e usam as tesourarias dessas empresas para aplicações em ativos virtuais, e crescentemente fazem aplicações em produtos financeiros obscuros de modo a cobrir riscos e a obter dinheiro. Todas estas atividades podem ser realizadas em offshores e são apoiadas por um exército de advogados, contabilistas e bancos de investimento».

Conferir aqui.


Eis aqui uma das listas das offshores no mundo, segundo várias organizações, citada pela Wikipedia.


E um MAPA com a sua localização, segundo a Economist:






24/10/2014

CAPITALISMO ASSISTENCIALISTA É O PASSADO; SOCIALISMO, O FUTURO


Até hoje, verdadeiramente, não se poderá dizer que houve socialismo - mesmo com a nuance marxista do "socialismo como transição para o comunismo".

Houve tentativas de construção.

Que enfrentaram condições extremamente desfavoráveis - guerras, boicotes maciços, concorrência desleal do sistema capitalista que se autofinanciava de graça pelo mecanismo do dólar não controlado internacionalmente (os EUA passaram a desrespeitar os acordos Bretton Woods nos anos 60, culminando na sua anulação formal por Nixon em 1971).

Aliás, se podemos considerar as experiências soviética, chinesa ou cubana como socializantes, não vejo porque não considerar também as experiências social-democratas escandinavas, por exemplo.

Social-democracia e  socialismo são sinónimos. Os partidos comunistas do tempo de Marx e de Lenine chamavam-se social-democratas, só  posteriormente, sobretudo os marxistas do norte europeu, optaram por uma via não-revolucionária e mantiveram a designação «social-democrata», enquanto a linha dominante russa passou a designar-se por «comunista».

Tirando a questão da designação, todas elas são experiências feitas em nome de ideais  humanistas e igualitários e de ambas podem tirar-se ensinamentos, assim como devem excluir-se os aspectos negativos.


QUE LIÇÕES TIRAR DA HISTÓRIA

Para resumir, uma delas é que são de excluir as tentativas do Estado controlar toda a Economia, planificar tudo como se fez na Rússia, em Cuba ou na China em certa fase.

Ficou demonstrado nessas experiências "socialistas" que o Estado não consegue programar superiormente todas as necessidades sociais e individuais, e que é preferível deixar algumas delas à «iniciativa privada».

Mas também ficou demonstrado, por outro lado, que o capitalismo deixado à solta e sem controle, tende a formar grupos que vampirizam setores e mesmo países inteiros.

Muitos dos grandes grupos capitalistas de hoje têm mais vendas anuais que o PIB de países de dimensão média, e formam lóbis que manipulam as leis, como ocorre nos EUA e na UE, orientando a economia exclusivamente para os seus interesses com gravissimos prejuízos ambientais, climatéricos e humanos, nomeadamente na saúde e no equilíbrio individual, familiar e social.

Assim, a única solução que respeita os superiores interesses sociais é um Estado forte que mantenha nas mãos  as alavancas da Economia e possa a todo o momento barrar os abusos dos grandes grupos.

Para isso, o Estado tem que reservar para si uma quota significativa da Economia.

Como? Essa é uma importante discussão, que deixarei para outro artigo.


A EXPERIÊNCIA CHINESA DE "UM PAÍS, DOIS SISTEMAS"

Os defensores do capitalismo pretendem que, se a China tem obtido um crescimento significativo, isso se deve apenas às zonas económicas capitalistas dentro da própria China.

Não é de todo verdade.

O que se passou na China, como antes na URSS, é que foi criada uma base produtiva através da planificação forçada, feita por um partido único que tomou o poder após uma guerra civil.

É a essa base que Marx chama de acumulação primitiva de capital, que existe em todas os sistemas - no caso do império inglês, por exemplo, foi através da pirataria e do colonialismo.

Sem essa base inicial, produtiva, educacional e organizacional, não seria possível o atual desenvolvimento chinês (através de ZEEs, mas também da reserva de mão-de-obra barata), que fornece a baixos custos ao setor capitalista alimentos, energia, água e demais matérias primas.

O que só é possível justamente através do subsistema estatal.

A diferença no caso da URSS é que (exceto na experiência passageira da NEP em 1921 -  após a guerra civil) não foram abertas «válvulas de escape» capitalistas como na China - esse facto,  a par da concorrência desleal capitalista, está na base do esgotamento do sistema soviético.
 
CAPITALISMOS DE ESTADO


Na verdade, o que resultou destas experiências sociais, segundo muitos autores, foram «capitalismos de Estado», ou seja, o patrão passou a ser o Estado, dirigido por um partido que se proclama comunista.

Um capitalismo de Estado assistencialista, ao qual se podem assacar  avanços na educação, na saúde e nas ciências, mas fracassos no plano económico, com estagnação a partir de certa altura.

É verdade que essa estagnação é em parte explicável pelos boicotes externos.

Sobretudo em casos como Cuba, simplesmente impedida pelos EUA de ter relações com o mundo e nomeadamente com a sua própria região.

Assim como no caso soviético, sofrendo uma competição desleal por parte do ocidente, sobretudo dos EUA, que emitiram dólares sem controle para financiar de graça a sua máquina militar. tecnológica e de espionagem, assim como para financiar o esbanjador sistema de vida norte-americano. 

Que é que os cubanos ou russos podiam fazer contra isso? Pouco - no caso russo, acabaram por se vergar à lógica capitalista, com Gorbachov.

Mas é muito revelador sobre o modelo e a natureza da sociedade que se construiu em todo o período anterior a Gorbachov, o modo como os cidadãos aceitaram tão facilmente e quase do dia para a noite, o derrube do suposto socialismo, e a evolução radical para um capitalismo agressivo, com injustiças e desigualdades gritantes, e dominado por novas oligarquias com contornos mafiosos.

Alguém acredita que pessoas conscientes e bem preparadas para a cidadania não teriam oferecido feroz resistência a uma evolução  deste género?

Só quem seja desprovida de senso crítico não percebe que a queda do sistema "soviético" reside na fragilidade das relações sociais que ele mesmo construiu após a Revolução de Outubro 1917, principalmente sob a direção de Estaline e seus sucessores.


CAUSAS PARA OS DESVIOS

Portanto, só em parte os  boicotes são a explicação para a fragilização deste sistema. Há também erros concepcionais  e desvios graves na política económica e social, apenas em parte justificáveis pela inexperiência e pelos problemas vividos na altura.

Outra parte tem a ver com concepções teóricas erradas sobre a natureza da sociedade, das classes sociais e do funcionamento do sistema económico e político. Temas que analisarei posteriormente.

Já o sistema chinês conseguiu manter-se, e isso é explicável em 1º lugar pela dimensão da China (que sózinha era já um sexto da humanidade há duas décadas atrás), em segundo lugar pela sua tradição milenar de disciplina e trabalho sacrificado, e em terceiro pelas válvulas de escape que foram Hong Kong, Macau e as ZEE (zonas económicas especiais), acabando os capitalistas ditos patrióticos, assim como as empresas estrangeiras instaladas, por funcionar como, mais que meras válvulas, um sistema capitalista sobreposto ao sistema estatal, de que na verdade este último é subsidiário, não a inversa.

Portanto nem russos, nem chineses ou cubanos têm ou tiveram um socialismo, muito menos um comunismo. Tiveram experiências estatizantes que merecem um estudo atento, não mais que isso.

Porque em todas elas faltou a educação e participação consciente do povo que caracteriza o verdadeiro socialismo, acabando ele por ser um mero figurante em vez do protagonista que deveria ser. Esse é o elemento determinante, a reter.

OUTRAS EXPERIÊNCIAS SOCIALIZANTES

Idêntica noção para os escandinavos, que construiram sociedades mais justas que as do capitalismo selvagem, sociedades onde o Estado não abdica dum papel dominante na educação, na saúde, na previdência social, na investigação ou na cultura.

Que acabam por ser experiências interessantes, mas muito limitadas do ponto de vista socialista, já que a fronteira entre os interesses do grande capital  e o superior  interesse social está (deliberadamente) mal definida, acabando o Estado por cumprir essa função assistencialista que atenua os conflitos, mas que é de todo o interesse para os grupos capitalistas.

Ou seja, aceitaram-se algumas reivindicações sociais democráticas, porém de modo a não pôr em causa a lógica final capitalista. Tal como nos regimes de partido comunista tendencialmente único, também nas social-democracias escandinavas os cidadãos passaram a ter um papel subalterno face ao aparelho de Estado, aos sindicatos e partidos e às grandes empresas.

É uma análise  que poderia ser tornada extensiva - ressalvados o grau de  desenvolvimento, o peso das oligarquias e o factor indigenista - aos populismos dos vários países latino-americanos.

E o que se passa na China será assim tão distinto?

Não, com a diferença que as reinvidicações sociais foram assumidas numa fase inicial pelo partido comunista, embora depois abandonadas a pretexto das "superiores" exigências de desenvolvimento.

Mas, tirando a cambiante da falta das liberdades, o Estado chinês está a cumprir exatamente a mesma função subsidiária perante os grandes grupos capitalistas, rotulados de «patriotas» pelo PCC no poder.

Sob este ponto de vista, descubra as diferenças entre a China e os capitalismos assistenciais escandinavos e latino-americanos...


PARA QUANDO AS DESEJADAS IGUALDADE E CIDADANIA INTEIRAS?


Não podemos confundir a fase de transição do sistema capitalista para o socialista com o verdadeiro socialismo como faz uma certa direita anti-socialista ou alguma esquerda dogmática.

Mas qualquer sistema, mesmo na fase de transição, já tem as marcas da sociedade a que vai dar lugar no futuro.

"A cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas capacidades" - enunciavam Marx e Engels como objectivo social.

Poderíamos atualizar dizendo: «igualdade nas oportunidades, discriminação positiva dos mais vulneráveis, tendo em vista uma sociedade justa e igualitária».

Ora um sistema destes não se inventa. A base para ele ser construído são as experiências que vivemos no passado e as que realizamos no presente.

Certamente que cidadãos bem preparados cultural e civicamente, que façam  valer os seus direitos e tenham a noção dos seus deveres, que não se demitam da participação cívica e aceitem correr riscos em vez de agirem de forma acomodada e individualista, serão a base para esse sistema no futuro.


CONDIÇÕES PARA UMA CIDADANIA AUTÊNTICA: ESTADO FORTE E MUITO FISCALIZADO PELOS CIDADÃOS

Valores que não se constroem, de certeza, em sociedades dominadas pela ganância e com  pessoas educadas apenas para consumir e produzir em vez de participar. Pessoas que deveriam, sim, tomar as decisões que interessem ao bem-estar individual e coletivo.

Nem numa sociedade onde  a competição feroz pelo lucro seja o motor e as decisões caibam a dissimulados agentes dos grupos económicos poderosos.

Uma tal sociedade torna as pessoas passivas, ignorantes, social e politicamente incompetentes, e desse modo vítimas fáceis de todo o tipo de manipulação.

Portanto, democracia e educação cívica pela participação directa, facilitada hoje pelas redes informáticas e pelo maior nível de educação, serão fundamentais para a construção duma tal sociedade.

Obviamente que um Estado forte - mas muito fiscalizado pelos cidadãos - capaz de se impor aos grupos privilegiados, sejam eles empresas, cartéis, lóbis ou corporações, é imprescindível para garantir as metas finais.

O sector privado capitalista terá que coexistir com o estatal e o cooperativo, sendo que este último deve ter grande peso - é o que melhor garante a iniciativa coletiva - sempre com o papel regulador central do Estado, que por sua vez tem que prestar contas aos cidadãos, através de mecanismos institucionalizados de democracia representativa combinada com a democracia participativa ou direta.

É isso que garante que as pessoas, em vez de meras máquinas alienadas para  produzir e consumir, sejam cidadãos conscientes que controlam cada vez mais o próprio destino.



19/10/2014

Uma passagem pelas TVs internacionais


- França


Novas iniciativas francesas - um toque de prestigitação.

O casal que tenta explorar trufas colhidas nas florestas da sua região.
A senhora da Córsega que abre um negócio de bolachinhas "macarroni".
As moças sócias que produziam hortícolas, mas falham, e tentam agora montar no seu terreno um camping de apoio, junto à estrada.

Tudo experiências sem qualquer continuidade garantida, supostas formas de combater a crise do desemprego no país, particularmente o desemprego jovem.

O caso mais interessante é o do jovem licenciado que herdou a vinha do pai (no vale do Loire - vinhos pouco conhecidos) mas que, devido à concorrência e ao estreitamento do mercado interno decide voltar-se para os EUA tentando salvar a vinha.

Mete-se no avião, umas garrafas de vinho e algumas pedras do seu  "terroir" na mala, e avança na promoção directa com o apoio dum 'marchand' francês local, no estado da Carolina do Norte....

Frases que ficaram no ouvido:

 .... "os EUA são muito diferentes da imagem decadente que eu tinha ao embarcar", "Carolina do Norte, um estado rico com gente atlética que pratica jogging na rua e cultiva o bom gosto"; "Com estas vendas, vou conseguir salvar a vinha de família".

Conclusão:

Em França, como cá, a treta vendida pelas TVs é a mesma, Só que mais eficiente, servida com uns toques de prestigitação e da famosa elegância francesa.

Se o país "não dá", a culpa é da população que 'não é empreendedora'.
E tem é que se virar para o estrangeiro.

E para onde? Nada mais nada menos - damas e cavalheiros - que para os "maravilhosos" Estados Unidos, o tal país que dá a volta a todas as crises.

Podem aplaudir, senhoras e senhores, meninas e meninos, e descansem:  não falaremos do dólar emitido sem controle,  não vá alguém apanhar uma indigestão...



- RAI - Itália

Debates políticos italianos. 

Que diferença, a atitude dos políticos italianos para os portugueses! Inimaginável o 1º ministro e outros ministros daqui sentarem-se lado a lado com o público e representantes da oposição questionados em direto e na cara, por vezes de forma dura, e não fugirem às questões...

A Itália pode ter defeitos: talvez falem demais (em Portugal, há é silêncios a mais, sobretudo dos políticos), talvez gesticulem mais do que concretizam, talvez o Papa tenha demasiado tempo de antena.... mas que por lá há muito mais espontaneidade e clareza, isso há...

Nota curiosa: o debate, sobre a reforma nos impostos, é introduzido por uma reportagem da RAI em... França, país onde muitos casais estão optando por ter 3 filhos, por ali existir um forte incentivo às famílias numerosas (3 filhos já dá direito a essa classificação) e embora um ou dois filhos garanta bons apoios, eles aumentam muito com o 3º filho e as deduções nos impostos chegam aos... 6.000 euros por ano!

Não acompanhei este debate italiano até ao fim, mas pelo exemplo  vê-se a diferença de temas e de estilo: enquanto em Itália se discutem os incentivos às famílias (claro, dada a crise, também se discutem cortes, como o dos músicos da ópera de Milão, que no entanto são trabalhadores privilegiados - já sobre o milhão de novos pobres recentes em Itália a RAI fala muito pouco)...

...entretanto por cá aceita-se passivamente a redução do IRC que beneficia os grandes grupos económicos enquanto se mantêm congelados os cortes nos rendimentos e as sobretaxas de IRS e o IVA, que punem sobretudo os trabalhadores e os micro-pequenos empresários, num país que já tem dos mais baixos salários da UE.


SIC internacional - Portugal

Falando sobre o mau tempo.


Num país em fase aberta de demolição, com  aposentados e funcionários roubados dos direitos básicos como em nenhuma parte do mundo, com os principais grupos empresariais desmantelados e vendidos à peça ao estrangeiro...

... políticos da oposição reunem-se em amena cavaqueira com uma das responsáveis por tudo isto, a ministra das Finanças, aceitando ser filmados na conversa que ela mesma dirige para o mau tempo; os partidos saem do encontro com declarações brandas, ficando-se na dúvida sobre que raio de oposição eles fazem... Apenas os Verdes - a quem aliás ninguém dá grande crédito - fazem o número do "polícia mau" e lá emitem umas frases mais rijas. Mas nada de especial, toda a gente sabe que são  só palavras, o  costume...

Sem mais comentários.


10/10/2014

AS VERDADEIRAS CAUSAS DA CRISE

Desde há bastante tempo - e pelo menos em parte promovida por setores ultracapitalistas - está em curso uma enorme campanha que aponta as baterias à corrupção, ao Estado e a todos os políticos.   

Compreende-se o seu sucesso: as pessoas, fartas de serem trituradas, mas muito despolitizadas e desconhecedoras da verdadeira natureza do sistema, caem na armadilha e ficam vulneráveis para apoiar o próximo espertalhão que os grandes bancos mundiais ponham a (des)governar mais uma vez o País - sempre com palavras como "rigor" e "honestidade" na boca.

Quase todas as ditaduras mais sanguinárias e criminosas foram precedidas de campanhas demagógicas prometendo um novo regime cheio de moral e bons costumes. 

Mas a verdade sobre o peso da corrupção em Portugal é outra, e tem que ser dita mesmo que não renda popularidade fácil:

- Os gastos com cargos politicos  e  com a corrupção - por muito antipáticos ou mesmo repugnantes que sejam -  não valem  mais que alguns (poucos)  pontos percentuais  no orçamento do Estado e no PIB (pelo menos em Portugal, que é o 33º país menos corrupto, numa lista de 177 países - confira clicando aí).

A PROVA DOS ESTUDOS ACADÉMICOS

Numa tese académica, Conceição Castro coloca Portugal num nível médio de percepção da corrupção entre os 27 membros da UE.

E é de observar que o estudo incide sobretudo na Europa dos 15, não na UE27, portanto compara Portugal com uma exigente élite europeia de países. 

Ela diz em determinado ponto que:

«Na UE15, a remuneração média na função pública é muito superior nos países nórdicos, onde a corrupção é muito baixa. 
Portugal é o segundo estado-membro dos 15 com remunerações mais baixas».
E mesmo assim a autora conclui que Portugal e Espanha se situam num nível médio de "percepção de corrupção". Cfr. aqui.

Um outro interessante estudo é o do blogue No Reino da Dinamarca, onde André Barata defende que a crise tem causas mais complexas que a simples corrupção, que vão desde a desigualdade, medida pelo índice de Gini, até à História do país, à complicação das leis e à ineficácia do Estado. 
Cfr. aqui.


OS FACTORES EXTERNOS COMO CAUSAS DO ENDIVIDAMENTO

Num só DIA, movimenta-se mais dinheiro especulativo nas bolsas de valores mundiais que todo o PIB dum ANO INTEIRO em Portugal.  E Portugal, no entanto, tem um PIB superior a 135 outros paises comparados num universo  de 188 (veja o ranking aqui).

O maior banco mundial, Goldman Sachs (onde andaram o Mario Draghi do BCE e o Carlos Moedas, ex-governo e novo Comissário europeu) - só esse superbanco que mexe com toda a economia mundial incluindo a portuguesa, segundo o seu presidente, realiza 1.000 transações por minuto nas bolsas.
Conferir aqui.

Alguns, como Medina Carreira, chegaram a proclamar que a troika viria moralizar Portugal. Quando na verdade as troikas não passam de empregados dos superbancos mundiais, em particular do Goldman Sachs.

Alguém consegue acreditar que o tsunami que atingiu Portugal em 2011 não teve nada a ver com esses corruptos especuladores internacionais?  

Ora... haja informação!


E sendo Portugal um país bem situado no ranking mundial dos PIBs (confira em baixo) mesmo assim a força desse tsunami especulativo não poderia deixar de causar profundos estragos, como é óbvio, e pelo motivo exposto pouco acima, no início deste tópico.

Para além disso, recordemos que a crise resulta fundamentalmente - cfr. As Causas da Crise - da balança de pagamentos,com estagnação das exportações, e declínio das remessas de emigrantes, além da quebra do investimento externo, frutos da adesão ao euro e consequente alta do preço das nossas exportações, e da queda da taxa de juro que remunera os depósitos.

Ninguém espere que eu absolva a corrupção interna ou a conivência, em maior ou menor grau, de todos os partidos - mesmo daqueles que fazem o "número" mais ou menos teatral duma oposição radicalizada.

Eles são também um dos factores da crise.
 

Não podemos é fazer o jogo dos que desviam  a atenção dos factores externos - em particular o papel da CEE-UE no desmantelamento da produção nacional  - e bem assim da gravidade das atuais políticas, ditas de austeridade, na verdade uma pura pilhagem - principais factores do afundamento do País.

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RANKING DOS PIBs 
Fonte: FMI Ano: 2013
PIB corrigido das ppc - paridades do poder de compra

Países por ordem do PIB, ppc PIB (milhares de milhões dóls. EUA) População (milhões habitantes)
Países por ordem do PIB per capita, ppc PIB per capita, ppc (dóls. EUA)






1º   EUA 16.768,1 308,7
1º Qatar 145.894
2º   China 16.149,1 1.338,6
2º Luxemburgo 90.333
3º   Índia 6.776,0 1.210,2
3º Singapura 78.762
4º   Japão 4.667,6 127,4
4º Brunei 73.823
5º   Alemanha 3.512,8 81,7
5º Koweit 70.785
6º   Rússia 3.491,6 142,9
6º Noruega 64.363
7º   Brasil 3.012,9 202,7
7º E.Árabes Unid. 63.181
8º   França 2.534,5 65,4
8º San Marino 62.766
9º   Indonésia 2.389,0 252,1
9º Suiça 53.977
10º Reino Unido 2.320,4 63,1
10º Estad. Unidos 53.001
11º México 2.058,9 118,4


12º Itália 2.035,4 60,8
17º Alemanha 43.475
13º Coreia do Sul 1.697,0 50,2






20º Canadá 43.253
15º Canadá 1.518,4 35,5
21º Dinamarca 43.080
16º Espanha 1.488,8 46,7


17º Turquia 1.443,5 76,7
25º Finlândia 40.045
18º Irão 1.244,3 77,2
26º França 39.813
19º Austrália 1.052,6 23,6
27º Japão 36.654
20º Nigéria 972,6 174,5
28º Reino Unido 36.208




29º Itália 34.103
23º Argentina 927,9 42,7
30º Coreia do Sul 33.791
24º Egipto 909,8 87,3


25º Polónia 896,8 38,5
32º Nova Zelândia 33.626
26º Paquistão 835,1 196,1
33º Israel 32.717




34º Espanha 31.942
29º África do Sul 662,6 54,0






42º Portugal 25.643
33º Venezuela 553,3 28,9


34º Argélia 522,6 32,5
44º Grécia 25.126
35º Iraque 499,6 36,0


36º Bangla Desh 496,0 156,6
46º Rússia 24.298
37º Vietnam 475,0 92,5






53º Chile 22.534
44º Ucrânia 392,5 44,3
54º Argentina 22.363
47º Peru 357,6 28,7
62º Turquia 18.874




63º Venezuela 18.453
51º Grécia 278,0 10,8






66º México 17.390
53º PORTUGAL 268,8 10,5


54º Israel 257,5 8,1
71º Irão 16.165
55º Marrocos 241,7 33,3


56º Dinamarca 240,9 5,6
76º Brasil 14.987






59º Finlândia 218,3 5,3
78º Iraque 14.367






64º Angola 166,1 20,9
85º África do Sul 12.507






69º Nova Zelândia 150,7 4,5
87º Rep.Dominicana 12.173






71º Rep. Dominicana 126,8 10,0
89º China 11.868






120º Moçambique 27,0 20,1
91º Perú 11.557






137º Haiti 17,6 10,0
96º Egipto 10.870






150º Timor-leste 9,2 1,2
101º Indonésia 9.635






164º Cabo Verde 3,2 0,5
106º Ucrânia 8.651






169º Guiné Bissau 2,4 1,5
110º Angola 7.968






182º S. Tomé e Príncipe 0,6 0,2
113º Timor-leste 6.678






188º Tuvalu 0,03 0,01
122º Cabo Verde 6.248










125º Nigéria 5.746




126º Índia 5.450




127º Vietnam 5.295










135º Paquistão 4.574










143º Tuvalu 3.168




144º Bangla Desh 3.167










149º S.Tomé e Príncipe 2.999










167º Haiti 1.703










176º Guiné-Bissau 1.411